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O novo incêndio do Reichstag

 Por Gustavo Bertoche Daqui de longe vi os acontecimentos do último domingo. Pessoas adultas, com profissão, com família, decidiram dar um "golpe" e instaurar uma "guerra civil" - a despeito da hostilidade dos meios de comunicação, da indiferença dos militares, da inexistência de uma liderança, da ausência de apoio internacional, da falta de treinamento armado -, baseadas somente no "sentimento", na "crença", na "esperança" de que no momento exato, sem haver nada combinado previamente, os generais surgiriam, como um deus ex machina, e executariam uma ruptura institucional. A confiança na Providência para a resolução do problema, e a conseqüente decepção quando ficou claro que ninguém apareceria para salvá-los, é reveladora: trata-se de um movimento antes religioso que político - uma comunidade de irmãos conectados pelas redes sociais a uma congregação virtual, na qual todos, ligados a um messianismo de um messias imaginário, diariamente...

Gaslighting

Por Leandro Ruschel O que estamos vivendo no Brasil é uma massiva operação de gaslighting. Para quem não é familiarizado com o termo, ele se refere a uma peça inglesa de 1938, em que um marido manipula psicologicamente a sua esposa, tentando levá-la a acreditar na própria loucura. Ele diminuía a intensidade das luzes da casa, e quando a esposa notava, afirmada que as luzes estavam com a mesma intensidade, seria tudo imaginação dela. Ele sumia de forma repentina e voltava horas depois, para dizer que nunca havia saído. Pois a esquerda, representada principalmente pela imprensa, apresenta a posse de Lula com ares de normalidade. O homem que foi condenado no maior escândalo de corrupção da história, junto com dezenas de pessoas, não é tratado apenas como inocente, mas como herói injustiçado. O mesmo sujeito que fundou o Foro de São Paulo, junto com o ditador da ilha presídio cubana, Fidel Castro, com o objetivo de instalar ditaduras socialistas pelo continente, é tratado como o salvador d...

Idiotas

 Por Gustavo Bertoche Amigos, a mais importante conquista da Modernidade não foi material: não foi a industrialização, nem o desenvolvimento dos aparatos técnicos, nem mesmo o progresso da ciência natural. A mais importante conquista da Modernidade - via o processo que Kant chamou de Aufklärung - foi de natureza político-cultural: a autonomia do pensamento e da expressão. Por isso, a virtude moderna por excelência é a capacidade de discordar, discutir e debater com liberdade, tolerância e serenidade. * * * Amigos, não há, na comunidade de idéias que é a rede social, nada mais ridículo que o patrulhamento ideológico. Sempre que vejo alguém se julgando no direito de decidir como o outro deve pensar e o que deve dizer, tenho a certeza: o patrulhador está na infância política - e é um ἰδιώτης, um idiota, no sentido mais preciso. * * * As polêmicas são necessárias para o movimento da razão. Como dizia Bachelard, "a verdade é filha da polêmica, não da concórdia". A ausência da dúvi...

País do futuro

Por Gustavo Bertoche Como acabar com o mito de que a educação brasileira dos anos 50 tinha boa qualidade... Em 1951, o físico norte-americano Richard Feynman (que posteriormente receberia o Nobel de Física) veio lecionar no Rio de Janeiro (ele tinha uma simpatia genuína pelo Brasil: aprendeu a falar português para melhor se comunicar com os seus alunos e chegou a tocar percussão numa escola de samba). Dessa experiência Feynman tirou uma conclusão: os brasileiros acreditavam ter no Brasil instituições de Ensino Superior, mas estavam enganados. Na realidade não havia universidade, não havia ciência, não havia Educação por aqui: o que existia era uma imitação desajeitada e sem propósito do que se fazia em outros países. Abaixo, trecho da autobiografia de Feynman. Ele avalia o período em que lecionou aqui. A sua conclusão é tão válida hoje como era há 70 anos. * * * "Em relação à educação no Brasil, tive uma experiência muito interessante. Eu estava dando aulas para um grupo de estuda...

Cristianismo

Não é possível ser cristão e ter alguma esperança no melhoramento do mundo. A idéia de "um mundo melhor" é uma das idéias mais ANTICRISTÃS do mundo.   Se você é cristão, você tem que entender que o mundo nunca vai melhorar, nunca. Você pode consertar uma coisinha aqui, mas se cria outro problema lá. Não obstante o dever de amar o próximo e de ajudá-lo onde é possível, continua vigorando. Fazer o certo SEM A ESPERANÇA de que dê certo, ser cristão é isto. Olavo de Carvalho.

Ditadura

Por João Luiz Mauad O que acontece hoje no Brasil é um escândalo de proporções oceânicas. Ontem, o xerifão eleitoral de plantão mandou bloquear as contas de dezenas de empresas, acusadas de participar de comboios “golpistas” em direção à Brasília. Fez isso sem que fosse dado aos acusados qualquer direito de defesa.   Agiu com um poder de polícia que ele não tem por lei, mas que lhe foi concedido por seus colegas de T5E, através de simples “resolução”, poucos dias antes da última eleição. Agiu também como se estivéssemos ainda em período eleitoral, mesmo duas semanas depois do pleito. Criou o período eleitoral perpétuo. Nenhuma novidade aqui, pois o indigitado ministro também já mandou prender um deputado em flagrante, ainda que o seu suposto delito tenha acontecido meses antes. Alegou que um vídeo exposto na internet configura “flagrante continuado”.   Outra jabuticaba foi a instalação de um inquérito criminal sem data para terminar e sem objeto definido, presidido pelo própri...

Ignorância

Por Gustavo Bertoche Hoje lembrei-me de um companheiro de magistério. Fui seu colega por alguns anos em uma rede de escolas particulares no Rio de Janeiro. É doutor na sua área de formação.   Um dia confessou-me jamais haver lido um livro sequer de literatura em língua portuguesa. "Mas como? Nem Machado, nem José de Alencar, nem Lima Barreto? Não leu nada da nossa literatura na escola?", perguntei. "Não. Na escola passaram aos alunos resumos de livros desses autores". * * * Sem a literatura, sem a aquisição dos planos hermenêuticos que constituem a matéria das palavras e das expressões da língua, sem a compreensão dos campos simbólicos em que se manifestam esses planos hermenêuticos das palavras, não podemos acessar a riqueza do real; ela ali está, diante de nós - todavia, por não termos a linguagem necessária para percebê-la, seguimos pobres, pobres de mundo. E sem o entendimento dos arquétipos - manifestos na literatura - sobre os quais os roteiros da nossa vida e...