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Mostrando postagens com o rótulo cultura

A douta ignorância

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Baile de máscaras

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A fórmula para enlouquecer o mundo

Olavo de Carvalho Diário do Comércio, 11 de junho de 2007 Adam Smith observa que em toda sociedade coexistem dois sistemas morais: um, rigidamente conservador, para os pobres; outro, flexível e permissivo, para os ricos e elegantes. A história confirma abundantemente essa generalização, mas ainda podemos extrair dela muita substância que não existia no tempo de Adam Smith. O que aconteceu foi que o advento da moderna democracia modificou bastante a convivência entre os dois códigos. Primeiro elevou até à classe dominante o moralismo dos pobres: na América do século XIX vemos surgir pela primeira vez na História uma casta de governantes que admitem ser julgados pelas mesmas regras vigentes entre o resto da população. No século seguinte, as proporções se invertem: a permissividade não só se instala de novo entre a classe chique, mas daí desce e contamina o povão. É verdade que não o faz por completo: metade da nação americana ainda se compreende e se julga segundo os preceitos da Bíblia....

Sucesso é ofensa

Por Paulo Cruz O Brasil é um país de cultura autoritária. A imensa maioria dos brasileiros não sabe e não quer viver numa democracia, onde há diversidade e divergências. Somos um bando de autoritários e vingativos, que amam se dar bem e ferrar os outros — sobretudo com poder nas mãos.  Toda divergência é anátema, toda discordância é traição e toda ideia contrária é mentira e deve ser eliminada. A intolerância é a regra e o sentimentalismo é virtude. Tudo errado. Qualquer um que tenha poder, trata logo de exercê-lo contra o outro. O país? Que se dane.  Somos atrasados, violentos, ignorantes — quando não somos maus mesmo. Matamos mais do que países em guerra, punimos inocentes e libertamos criminosos; somos escapistas e refratários a compromissos. Amamos a lei do menor esforço e pagamos mais impostos do que países de 1º mundo.  Entra e sai governo e é sempre a mesma coisa. Por que? Porque os piores governam; gente baixa, pretensiosa, oportunista e rancorosa. Socialistas que...

Resenha: Teorias Cínicas

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A obra “Teorias Cínicas”, de Helen Puckrose e James Lindsay, cuida-se de um compêndio explicativo sobre um aspecto bem particular da cultura dos países ocidentais e que se tornou mais óbvio em tempos recentes: trata-se do tema “Justiça Social”, em letras maiúsculas, que se diferencia do lugar-comum “justiça social”, a ideia corrente de equidade ou isonomia. “Justiça Social”, em letras maiúsculas, é toda uma nova cultura que nasceu dos movimentos “woke”, objeto de estudo dos autores. Eles traçam um panorama do que se tornou hoje a intelectualidade e o ativismo da esquerda, embasada pela “Justiça Social”: um conjunto difuso de abordagens baseadas no pós-modernismo/pós-estruturalismo da década de 1970 que se coalesceu num movimento quase religioso, a “Teoria da Justiça Social”. Inicialmente, explica-se o desenvolvimento histórico e teórico desse movimento que nasceu da insatisfação com as grandes narrativas, sobretudo o marxismo, a ciência e as religiões tradicionais. Tomando por base ...

O progressismo está matando San Francisco cada vez mais rápido

Por Matt Montenegro Westfield, que é o principal "shopping" do "centro" da cidade, anunciou que devolverá o imóvel ao proprietário. Com 55% de ocupação, o negócio está ficando completamente inviável. Além de encontrar fezes humanas recorrentemente nos elevadores, as lojas do empreendimento sofrem com constantes shoplifting. Pesa em desfavor a saída da loja-âncora Nordstorm que ocupava parte de cerca de 4 andares do local. Algumas das lojas que fecharam na região da Union Square de San Francisco entre 2020 e 2023: → Abercrombie & Fitch  → Amazon Go  → Anthropologie  → Banana Republic  → Disney  → Gap  → H&M  → Marshall's  → Nordstorm  → Office Depot  → Uniqlo  → Whole Foods Outras lojas relevantes que também fecharam as portas: Arc'teryx, Athleta, CB2, Crate & Barrel, DSW, The Container Store, The RealReal. Acentuando a deterioração da cidade, a CVS fechou ao menos seis de suas lojas em 2022 e a Walgreens outras dez ...

Bibliotecas

 Por Gustavo Bertoche Uma biblioteca não é simplesmente um lugar em que podemos ler livros. Cada biblioteca é uma praça de resistência. É uma das últimas instituições em que qualquer pessoa pode entrar e ter livre acesso a bens de alto valor econômico sem que ninguém queira cobrar-lhe alguma coisa. * * * Em "Fahrenheit 451", Ray Bradbury descreve uma distopia em que os livros são proibidos. Lá as telas, a televisão, o entretenimento interativo tomam todo o lugar da cultura literária. Conseqüentemente a população se torna mansa e estúpida - e passa a odiar os livros como se fossem “armas carregadas”: "Nada mais simples e fácil de explicar! Com a escola formando mais corredores, saltadores, remendadores, agarradores, detetives, aviadores e nadadores em lugar de examinadores, críticos, conhecedores e criadores imaginativos, a palavra 'intelectual', é claro, tornou-se o palavrão que merecia ser. Sempre se teme o que não é familiar. Por certo você se lembra do menino ...

Escola e escolarização

Por Gustavo Bertoche Amigos, comecei a dar aulas no Ensino Médio em 1999, quando estava no segundo ano da graduação em Filosofia. Ou seja: há mais de vinte anos passei a freqüentar a sala de professores. Nesse ambiente, quase não presenciei discussões sobre processo pedagógico, sobre currículo, sobre métodos de ensino. Em lugar disso, ouvi com enorme regularidade reclamações quanto a prazos para entrega de notas, quanto a salários baixos, quanto a alunos “mal-educados”, quanto a resultados de jogos de futebol. A conclusão é inevitável: há algo de podre na nossa escola. * * * Um professor é um intelectual. O seu principal instrumento profissional é o seu pensamento – o que inclui a sua memória, a sua erudição e a sua capacidade de reflexão. Por isso, supõe-se que ele seja capaz de refletir sobre o seu trabalho, isto é: sobre o sentido da Educação, sobre a meta do processo pedagógico, sobre os métodos adequados ou inadequados para que essa meta seja alcançada. Todavia, raríssimas vezes e...

Tolkien usurpado

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John Ronald Reuel Tolkien, J. R. R. Tolkien ou simplesmente Tolkien, foi o filólogo e romancista inglês responsável pela criação do épico de fantasia mais influente de todos os tempos, O Senhor dos Anéis . Uma obra rica e impressionante, foi pensada a partir de várias influências sociais, religiosas, místicas e linguísticas, tornando-se não só um marco da literatura de alta fantasia, mas também um ícone da cultura de massa da segunda metade do Século XX.  Após a morte de Tolkien, em 1973, os direitos autorais da obra foram reunidos sob seu espólio, cuja administração incumbia a Christopher John Reuel Tolkien, terceiro filho do falecido escritor. Ferrenho advogado da memória de seu pai, Christopher editou vários livros póstumos, com estórias inéditas e compilações de alguns de seus rascunhos sobre o mundo de Arda, os quais não haviam sido publicados durante a vida do autor.  Sua obstinação em manter a integridade da obra era notória, de modo que conseguiu afastar por décad...

Sobrou para Shakespeare

Por Fernando Schüler O guerreiro woke não dá trégua. Em um dia ele quer cancelar J.K. Rowling e seu Harry Potter, no outro banir o Sítio do Picapau Amarelo das bibliotecas. Ele é essencialmente um ativista. Se alguém acha que a composição de gênero da última novela está errada, ou que devemos limpar nosso vocabulário de uma lista sempre crescente de palavras, ou ainda que aquele youtuber deve ser calado, qual seria o problema? Não vivemos em uma sociedade aberta, onde cada um pode defender o que lhe dá na telha? Muita gente acha que o problema é mais complicado. Um deles é Elon Musk. Recentemente, ele disse que a cultura woke precisa ser combatida. Reclamou da chatice politicamente correta das séries da Netflix e decidiu entrar em campo para combater esse “vírus” que ameaça “destruir nossa civilização”. Musk anda vendo coisas, ou será que ele tem alguma dose de razão? A cultura woke anda por toda parte. Traduz um tipo de vigilância coletiva, facilitada pela internet. Você assiste à nov...

Logical conclusion

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🎯🎯

A verdadeira resistência

Como o Ocidente se apaixonou pelo fracasso e como salvá-lo de si mesmo Não gosto de gráficos, muito comumente são chatos e tendem a quantificar coisas que, por vezes, são inquantificáveis; a indefinição da vida humana me parece muito mais promissora que seus cálculos econométricos e curvas exatas. Mas até eu tenho que me render ao gráfico do Our World Data sobre o nível de extrema pobreza do mundo de 1820 até 2018. Para termos uma noção de como o crescimento econômico no Ocidente foi gigantesco e arrebatador, o economista Angus Maddison calculou em seu livro The Rise and Fall of Americam Growth, que do ano 1 ao 1820 a economia mundial cresceu apenas 0,06%; Deirdre McCloskey, em Bourgeois Dignity, afirma que até o advento da Revolução Industrial, no século XVIII, quase todo mundo vivia com no máximo 3 dólares por dia. Mas algo assustador e magnífico ocorreu entre os séculos XVI e XVIII, gerando um boom de prosperidade que redesenhou as capacidades racionais, políticas e sociais, bem com...

Sabedoria

A acadêmica e professora da University of the Arts em Philadelphia, Camille Paglia nasceu em 2 de abril de 1947. A sabedoria da aniversariante da semana: “Os homens sacrificaram-se e mutilaram-se física e emocionalmente para alimentar, abrigar e proteger mulheres e crianças. Nenhuma de suas dores ou conquistas é registrada na retórica feminista, que retrata os homens como exploradores opressivos e insensíveis.” “O patriarcado, rotineiramente culpado por tudo, produziu a pílula anticoncepcional, que fez mais para libertar as mulheres contemporâneas do que o próprio feminismo.” “A mulher é o sexo dominante. Os homens têm que fazer todo tipo de coisa para provar que são dignos da atenção da mulher.” “O feminismo contemporâneo se separou da história e faliu quando teceu sua fantasia pueril e paranóica de opressores masculinos e vítimas de objetos sexuais femininos. A mulher é o sexo dominante.” “Eu digo que a lei deve ser cega para raça, gênero e orientação sexual, assim como afirma ser ce...

Seitas

Defender a diversidade ou os dogmas identitários? Por Leandro Narloch Discriminação e desigualdade racial e de gênero são problemas complexos. Por "complexos", entende-se que têm causas de difícil diagnóstico e que as propostas para solucioná-los ainda estão em debate. Infelizmente não sabemos muito bem quais ações funcionam, se pioram o problema em vez de resolvê-lo, ou quais têm custo de oportunidade maior que o benefício. Tamanha dificuldade exige que a roda de conjecturas e refutações da ciência funcionem. Hipóteses das mais diversas precisam ser apresentadas, testadas e discutidas. A imprensa ajuda, se comunicar essas dúvidas e complexidade ao leitor, de modo que a sociedade consiga selecionar os melhores diagnósticos e propostas. No entanto boa parte dos acadêmicos, ativistas e jornalistas que tratam do tema se comporta como se estivessem diante de problemas simples com soluções conhecidas. Tão certos de que estão certos, não se interessam por abordagens diferentes e mu...

Chico Buarque

Por Denis Reis O compositor Chico Buarque decidiu se autocensurar e não cantar mais a música "Com açúcar e com afeto", atendendo a pedidos de "feministas" que a consideram "machista".   Se ele levar a sério essa orientação, metade da obra buarquiana deverá ser descartada. Toda a Ópera do Malandro - onde há coisas bem sérias como "Se eu fosse seu patrão" ou o "Tango do Covil". Quem acha "Com açúcar e com afeto" "machista", o que dirá de "Terezinha"? O último disco, "As caravanas", ainda está em tempo de ser recolhido das vendas, pois tem machismos piores onde, por exemplo, o "eu lírico" do poeta paquera uma moça lésbica e a "Tua Cantiga", um exagero buarquiano que - reconheço - chega mesmo a ser um pouco patética.   Em verdade, o que esta época "pós-moderna" condena não é o "machismo", o "racismo" ou o que quer que seja. Ela condena a vida. Falar da...