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Capitalismo e cristianismo

Por Olavo de Carvalho.  Artigo publicado originalmente na revista República – edição de dezembro de 1998. Uma tolice notável que circula de boca em boca contra os males do capitalismo é a identificação do capitalista moderno com o usurário medieval, que enriquecia com o empobrecimento alheio. Lugar-comum da retórica socialista, essa ideiazinha foi no entanto criação autêntica daquela entidade que, para o guru supremo Antonio Gramsci, era a inimiga número um da revolução proletária: a Igreja Católica. Desde o século XVIII, e com freqüência obsessivamente crescente ao longo do século XIX, isto é, em plena Revolução Industrial, os papas não cessam de verberar o liberalismo econômico como um regime fundado no egoísmo de poucos que ganham com a miséria de muitos. Mas que os ricos se tornem mais ricos à custa de empobrecer os pobres é coisa que só é possível no quadro de uma economia estática, onde uma quantidade mais ou menos fixa de bens e serviços tem de ser dividida como um bolo de a...

Muskfobia

Por Fernando Schüler “Pratica atos satânicos”, diz Nicolás Maduro sobre Elon Musk, que entre outras coisas teria “hackeado o sistema eleitoral venezuelano”. O.k., não dá para levar o Maduro a sério. É apenas um exemplo pitoresco do haterismo global em torno de Musk. De um jornalista, leio que o dono do X, o antigo Twitter, “é o grande perigo para a democracia no planeta”. Assim, no seco. A razão principal seria que ele espalha “inverdades”, em sua conta, na rede. Além de ser dono da própria rede. Não entendi bem o que teria uma coisa a ver com a outra. Em algum momento, o sujeito diz que o problema seria manter uma “plataforma não mediada”. O risco à democracia viria do próprio excesso de liberdade. Sinal dos tempos. A lógica foi repetida por Edward Luce, do Financial Times. “As democracias não podem mais ignorar”, diz Luce, a “ameaça” de Musk. Suas reclamações incluem um vídeo satírico de Kamala Harris usando IA e muitos amigos de “direita”. E essa maldita Primeira Emenda, que permite...

Go f*ck yourself

Aqui está o contexto da fala de Musk sobre ser chantageado pela Disney. Valem os quase cinco minutos. “O que eu vejo em todo lugar são pessoas que se preocupam em ter uma boa aparência enquanto na verdade estão praticando o mal. Eles que se danem.” pic.twitter.com/w0uHvnmq82 — Matt Montenegro (@eusouomatt) November 30, 2023

Capitalismo

Abaixo, trechos da fantástica entrevista do historiador Rainer Zitelmann, veiculada no Estadão. E: O sr. afirma que o capitalismo não é o problema, é a solução. O que o leva a dizer isso de forma tão categórica? RZ: Vou lhe dar só um dado, mas posso lhe dar outros. Há 200 anos, por volta de 1820, antes do capitalismo, 90% da população mundial viviam na pobreza extrema. Hoje, são menos de 10%. Mais da metade da queda se deu nos últimos 35 anos. Veja o que aconteceu na China. No fim dos anos 1950, 45 milhões de pessoas morreram como resultado do chamado “Grande Salto para a Frente” empreendido por Mao Tsé-Tung. Em 1981, cinco anos depois da morte de Mao, 88% da população chinesa ainda viviam em extrema pobreza. Foi mais ou menos quando eles começaram a introduzir a propriedade privada e as reformas pró-mercado no país. Hoje, menos de 1% estão nesta situação. Isso nunca aconteceu na história. Nunca tantas pessoas saíram do estado de extrema pobreza em tão pouco tempo como resultado de r...

Bilionários

Por Fernando Schüler No auge da brabeza global pela compra do Twitter, por Elon Musk, li um curioso argumento, dito por um ativista de redes sociais. Segundo ele, toda vez que Musk fica mais rico, a humanidade ficaria mais pobre. Na sua cabeça, imagino, a riqueza global deve ser como uma espécie de bolo gigante, de modo que se algum guloso pega um naco muito grande para si, sobra menos para os demais. Uma deputada resolveu ser mais direta: bilionários “nem deveriam existir”, disse ela. Me caiu os butiá dos bolso, como se diz lá no Sul. O que o sujeito faria, exatamente, se abrisse uma empresa e ela começasse a crescer? Vendendo sua participação, outros ficariam bilionários. Se o governo confiscasse cada centavo ganho acima de 1 bilhão, por que ele continuaria investindo e fazendo negócios? Por esporte? Desconfio que não ia funcionar. Há uma enorme confusão aí sobre como se gera valor e como alguém se torna um bilionário, em uma economia de mercado. Tem um site curioso na internet mostr...

Descartáveis

Somos todos descartáveis? A sociedade atual quer sempre mais, mais e mais. O consumismo impera, de forma que até os seres humanos tornam-se bens de consumo. Das modelos novas em roupas caras aos trabalhadores braçais, todos não passam de mercadorias.  Até os relacionamentos: não está satisfeito com o seu atual? Ele está aquém das suas elevadas expectativas? Basta procurar outro no mercado! E assim se procede, não importa a sua posição, gênero, classe, idade... Todos são descartáveis. 

Resenha: O Povo contra a Democracia

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Leia com cautela O Povo contra a Democracia é o terceiro livro de um dos autores mais aclamados pelo “mainstream” midiático no momento, Yascha Mounk. Doutor em Harvard e professor da John Hopkins, Mounk de fato alia rigor acadêmico a um verniz de honestidade intelectual para tentar explicar a nova dinâmica política que ocorre hoje no Ocidente.  Sua principal tese é a de que a democracia liberal vem se desconsolidando nas últimas décadas. Refutando o antigo consenso de estabilidade dos regimes democráticos, o autor demonstra que os atuais movimentos políticos estão tendentes a assumir posturas extremistas. O resultado seria a degeneração do regime democrático-liberal em dois outros intermediários no caminho até o autoritarismo: a democracia iliberal e o liberalismo antidemocrático.  O autor assume a hipótese de que as condições nas quais a democracia liberal vicejou não estão mais presentes, quais sejam, a homogeneidade étnica, o crescimento econômico contínuo e o...

A revolta das elites

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O Século XX foi caracterizado pela revolta das massas. Mas, hoje, vivemos a revolta das elites. Parece estranho o que escrevi? Bom, veja por esta perspectiva: por muito tempo, as elites controlaram o mundo, tanto no que diz respeito às riquezas materiais quanto em relação à cultura. A partir de determinado momento, no entanto, a Democracia, o Estado de Direito e o Capitalismo promoveram uma mudança de rumos: agora o povo poderia, teoricamente, controlar a política. Até certo ponto, isto é verdade. Contudo, o sistema nunca foi perfeito e vários se revoltaram contra aquilo que achavam uma farsa. Fizeram de tudo para destruir tal sistema, sobretudo uma pretensa elite intelectual que se dizia parte do povo. Assumiu, com petulância, a tarefa de guiá-lo contra os "opressores", negando o fato de que talvez ela mesma fosse parte do aparato "opressor". Essa narrativa prevaleceu por um bom período da história humana. Massas de indivíduos renunciaram à sua autoco...

O que é ser um conservador?

A verdadeira postura conservadora pode surpreender a maioria Ser um conservador em nada se relaciona com um suposto saudosismo de eras passadas, ou com a manutenção de um sistema ético-moral baseado em tradições ancestrais. Ser conservador é ser prático: é admitir que o Ocidente moderno só obteve sucesso em difundir sua cultura e, no processo, dominar o mundo, tendo como base três pilares fundamentais: Capitalismo, Ciência e Estado Democrático de Direito.  Os dois primeiros foram resultado de um longo processo ocorrido ao longo de séculos, que incutiu na sociedade a ideia de progresso: o mundo pode ser melhor no futuro, desde que os seres humanos procurem o conhecimento. A aquisição de conhecimento gera confiança no futuro. Mais confiança significa que mais crédito pode ser disponibilizado, mais empreendimentos podem ser realizados e mais conhecimento pode ser produzido. A sociedade enriquece, num ciclo virtuoso ininterrupto. O terceiro pilar, Estado Democrático de Dir...