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Mostrando postagens com o rótulo ideologias

O identitarismo é um movimento punitivista

Por Lygia Maria O poder do Estado moderno não aumenta apenas pela imposição, mas por solicitação: quanto mais esse poder é acionado, mais se expande e se cristaliza. A sociedade sente medo (seja por crime, doença, moralidade ou desinformação) e demanda intervenção do Estado, que acata o pedido com criação ou recrudescimento de leis, regulações e vigilância. Como resultado, a sociedade passa a depender dessas novas estruturas de controle. Tal mecanismo, descrito por Michel Foucault, por décadas respaldou discursos e práticas de movimentos de esquerda que se opunham ao autoritarismo —inclusive o soviético. Mas o identitarismo solapa essa perspectiva. O Ministério Público Federal denunciou uma ativista paraibana por transfobia. O crime? Dizer numa rede social que "mulheres trans não são mulheres porque nasceram do sexo masculino". Na denúncia, aceita pela Justiça, a deputada federal do PSOL Erika Hilton é vítima, mesmo que não tenha sido citada nas postagens. A Políc...

Nossa herança comum

Fernando Schuler, Veja - 21/02/2025 J.D. Vance fez um discurso inusitado na Conferência de Segurança europeia, em Munique. Plateia repleta de líderes do continente, grande expectativa, esperava-se que ele falasse de Putin, da guerra, mas Vance não se abalou: “O problema de vocês não são as ameaças que vêm da Rússia nem a China, mas o perigo que vem de dentro”, disse. E completou: “O recuo da Europa em seus valores mais fundamentais, que são os mesmos dos Estados Unidos”. Generosidade dele. Os valores europeus nunca foram os mesmos que os da formação americana. A inspiração que veio de Locke, Milton e do liberalismo inglês, que andava na cabeça dos fundadores da América, sempre foi um recorte muito específico da tradição europeia. O Velho Continente nunca teve nada semelhante à Primeira Emenda, garantindo a liberdade de expressão. E vem daí a raiva provocada pela fala de Vance. Na prática, ele deu um sermão na liderança europeia com base em deuses ou, ao menos, em credos não tão comun...

Árvore genealógica não é argumento no debate público

Importa o que indivíduos fazem, não o que seus antepassados fizeram; lógica identitária, obcecada por biologia, é divisiva Por Lygia Maria Um discurso racial perigoso emergiu na última semana. A psicanalista Maria Rita Kehl fez críticas ao identitarismo e, como resposta, foi linchada nas redes sociais a partir do argumento de que, além de branca, seu avô, Renato Kehl, era eugenista. Já Walter Salles foi alvo de um artigo de jornal cuja autora observa "cada traço fenotípico" do rosto do cineasta para concluir que, nele, enxerga "a descendência dos que torturaram, estupraram, açoitaram, mantiveram em cárcere meus ascendentes". Discurso racial, mas poderia ser racista, ao menos segundo a Convenção Interamericana contra o Racismo: "Racismo consiste em qualquer teoria, doutrina, ideologia ou conjunto de ideias que enunciam um vínculo causal entre as características fenotípicas ou genotípicas de indivíduos ou grupos e seus traços intelectuais, culturais e de pe...

No labirinto da tirania

Por Francisco Razzo Franz Kafka morreu sem imaginar que seu nome se tornaria um adjetivo. Hoje, no direito, tudo o que é confuso, burocrático ou absurdo ganha seu epíteto. Entre suas obras, O Processo é aquela que melhor representa o espírito de nossa época com inquietante precisão. Josef K., o protagonista, é acusado de um crime indefinido por um tribunal opaco, cuja lógica escapa à razão. Sua condenação é inevitável, não pela culpa, mas pela própria natureza labiríntica do sistema. Nosso ordenamento jurídico, em muitos aspectos, parece escrito por Kafka. Decisões brotam de critérios movediços, distantes do princípio fundamental da isonomia. Regras elásticas, definições ambíguas e justiça subjetiva substituíram a promessa de igualdade perante a lei. Quando se busca coerência, depara-se com o absurdo; quando se exige neutralidade, surge o arbítrio disfarçado de narrativa da reparação histórica. Um exemplo recente: o Superior Tribunal de Justiça brasileiro decidiu que injúria racial c...

A vítima nem sempre tem razão

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Negacionismo de esquerda

Por J. R. Guzzo A derrota arrasadora que a esquerda americana, brasileira e mundial acaba de sofrer na eleição presidencial nos Estados Unidos só pode ser comparada às análises dos seus pensadores sobre a torrefação da Grande Esperança Negra que inventaram para perder. Não conseguiram, até agora, deixar de pé um único pensamento coerente sobre o naufrágio. Estão em estado de choque, e tudo o que têm a apresentar é uma maçaroca de exclamações desesperadas, irracionais e sobretudo cegas. Não há obviamente como comentar uma derrota desse tamanho sem examinar o que há de errado na conduta de quem perdeu. A esquerda resolveu jogar a culpa nos vencedores. Ninguém está vendo o que anos seguidos da estratégia única de tratar Donald Trump como um demônio, em vez de um oponente político, produziram na vida real. Não parece ser nenhum fenômeno sobrenatural. O eleitor americano ficou exausto de ouvir coisas em que não acredita, basicamente por não fazerem nexo – e reagiu devolvendo a Presidê...

Vitória de Trump põe Lula, professores da USP e banqueiros de ‘pegada social’ em ansiedade extrema

Por J R Guzzo O Brasil tem acumulado angústias, ao longo de toda a disputa eleitoral pela presidência dos Estados Unidos, diante dos riscos de que o “fascismo” volte à face da Terra. Na verdade, não é o Brasil que está preocupado com o assunto. A população brasileira tem mais bom senso que toda a sua elite somada, e sabe perfeitamente, ou intui, que não existe uma única coisa de verdade na sua vida que possa ser ameaçada pelo “fascismo”. Sabe os perigos reais do seu dia a dia, que vão de uma droga de salário até o revólver que o ladrão aponta para a sua cabeça – e tem certeza de que a extrema direita não é um deles. Quem fica falando dia e noite disso são Lula, os professores da USP e os banqueiros com “pegada social” – e quem mais se inclui no seu mundo. Devem estar com a ansiedade em modo extremo, desde ontem, com a vitória de Donald Trump para a presidência americana. Segundo disse às vésperas eleição o presidente brasileiro, Trump vai trazer de volta para os Estados Unidos e o mund...

Lugar de fala é lugar de cale-se

O identitarismo perde feio em eleições, mas continua soberano nas universidades Por Wilson Gomes Quando escrevi esta coluna, eu ainda não sabia o resultado da eleição presidencial americana, mas você, caro leitor, provavelmente já sabe. Independentemente de quem venceu essa disputa, que pode influenciar decisivamente a eleição brasileira em dois anos, há questões que já estão claras para quem acompanha as cada vez mais frequentes competições em que a extrema direita se apresenta com grandes chances de vitória. A mais evidente delas, que afeta tanto as retóricas eleitorais quanto as perspectivas de políticas públicas e mudanças legislativas futuras, é a crise de popularidade da ideologia identitária. Para quem acompanhou a campanha americana, saltam aos olhos tanto o recuo na retórica identitária de Kamala Harris quanto o avanço, agora sem filtros, da agenda anti-identitária de Donald Trump . Como tudo ali é baseado em dados e cálculos eleitorais, o afastamento de Harris dessa retórica ...

Capitalismo e cristianismo

Por Olavo de Carvalho.  Artigo publicado originalmente na revista República – edição de dezembro de 1998. Uma tolice notável que circula de boca em boca contra os males do capitalismo é a identificação do capitalista moderno com o usurário medieval, que enriquecia com o empobrecimento alheio. Lugar-comum da retórica socialista, essa ideiazinha foi no entanto criação autêntica daquela entidade que, para o guru supremo Antonio Gramsci, era a inimiga número um da revolução proletária: a Igreja Católica. Desde o século XVIII, e com freqüência obsessivamente crescente ao longo do século XIX, isto é, em plena Revolução Industrial, os papas não cessam de verberar o liberalismo econômico como um regime fundado no egoísmo de poucos que ganham com a miséria de muitos. Mas que os ricos se tornem mais ricos à custa de empobrecer os pobres é coisa que só é possível no quadro de uma economia estática, onde uma quantidade mais ou menos fixa de bens e serviços tem de ser dividida como um bolo de a...

A fórmula para enlouquecer o mundo

Olavo de Carvalho Diário do Comércio, 11 de junho de 2007 Adam Smith observa que em toda sociedade coexistem dois sistemas morais: um, rigidamente conservador, para os pobres; outro, flexível e permissivo, para os ricos e elegantes. A história confirma abundantemente essa generalização, mas ainda podemos extrair dela muita substância que não existia no tempo de Adam Smith. O que aconteceu foi que o advento da moderna democracia modificou bastante a convivência entre os dois códigos. Primeiro elevou até à classe dominante o moralismo dos pobres: na América do século XIX vemos surgir pela primeira vez na História uma casta de governantes que admitem ser julgados pelas mesmas regras vigentes entre o resto da população. No século seguinte, as proporções se invertem: a permissividade não só se instala de novo entre a classe chique, mas daí desce e contamina o povão. É verdade que não o faz por completo: metade da nação americana ainda se compreende e se julga segundo os preceitos da Bíblia....

Do que adianta?

Alguns tentam justificar o injustificável. Outros ainda tentam lutar. Do que adianta? As pessoas teimam em entender o Brasil atual pelo pensamento pequeno-burguês, em que a lei a ordem ainda são valores consideráveis. Não percebem que isso já foi surrupiado dessas bandas há muito tempo.  Não há mais estado de direito, democracia, livre-mercado, livre-iniciativa. Isso nunca existiu de fato neste país, que sequer se conseguiu se inserir na onda liberal do Século XVIII. Isso aqui sempre foi um arremedo de modernidade. Mas, agora, a ilusão de que tais ideais poderiam ser buscados não existe mais. O que há é puro suco do socialismo ditatorial, não apenas sob o aspecto institucional, mas também socialmente arraigado.  A situação que vivemos atualmente não veio da noite para o dia. Foi resultado de lenta transformação social e cultural, incutindo nas pessoas a mentalidade socialista. Ninguém mais se importa com direitos e garantias de índole liberal. O que importa agora é o planejame...

De joelhos diante do "Wokismo"

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Etnia, gênero e orientação sexual pesam mais que argumentos

Por Eduardo Affonso Existe a lógica matemática (se A > B e B > C, logo A > C) e existe a da brincadeira infantil em que a pedra amassa a tesoura, que corta o papel, que embrulha a pedra. Nesta, cada elemento é forte e fraco, maior e menor, vencedor e derrotado, a depender da circunstância. Quem inventou esse jogo devia estar querendo ensinar às crianças que tudo é relativo e — mais que isso — que o mundo dos adultos não é para principiantes. Com a distorção (intencional) do conceito de “lugar de fala”, critérios como etnia (equivocadamente chamada de “raça”), gênero (outrora conhecido como “sexo”) e orientação sexual passaram a ter mais relevância que os argumentos. Mas ninguém ainda definiu a hierarquia, o peso de cada um desses fatores. Numa discussão entre uma mulher branca e um homem preto, quem tem razão? A cor da pele prevalece sobre o gênero, assim como a tesoura sobre o papel? E entre uma mulher cis e um homem trans? A identidade de gênero será agora a pedra que esmaga...

Imposto sobre a inveja

Por Gustavo Maultasch Tribute-se a inveja, e não a herança; inclusive, porque se arrecadaria muito mais. A base tributária é bem maior: vermelhos de inveja, há um bando numeroso que está mais preocupado em cobiçar a posse do próximo que em auditar o próprio fracasso para ambicionar algo melhor para a sua família. Imposto sobre a herança é uma das políticas públicas mais vis, torpes e repugnantes que existem. É um dos tributos mais sujos e imorais jamais inventados. Poucas coisas na vida são mais bonitas, virtuosas e sublimes do que trabalhar e privar-se do próprio consumo para, no futuro, poder deixar algo para os filhos. Não; eu quero muito, mas não posso comprar isso porque quero deixar esse bocado a mais para o meu filho. É o bem-estar futuro da sua família sacralizado no sacrifício do tempo presente. Essa atitude deveria ser aplaudida e reverenciada pela sociedade. Deveria haver um prêmio tipo Nobel para quem deixou a maior herança todo ano. O sujeito privou-se para deixar a rique...

Armadilha Identitária

 Por Fernando Schüler ”Ansiosa para ser presa quando voltar ao berço do iluminismo escocês”, escreveu J.K. Row­ling, autora de Harry Potter, em um tuíte. Row­ling fazia referência à nova “lei de crime de ódio” que entrou em vigor na Escócia, este ano. A lei menciona uma lista de grupos “protegidos”, ligados a gênero, idade, orientação sexual etc., e diz que atitudes “que uma pessoa razoável consideraria ameaçadora” são passíveis de punição. Caberá à polícia e aos juízes dizer exatamente o que isso significa, e não é difícil imaginar a confusão que a nova lei está causando. Ela é um bom exemplo de um traço de nossa época, definido como “safetyismo” pela psicóloga Pamela Paresky. A ideia de que nos tornamos subitamente frágeis — ou, ao menos, seletivamente frágeis. E que, portanto, precisamos ser protegidos. Pelo Estado, pelas empresas, pela polícia, como agora faz a Escócia. E protegidos não apenas da violência, mas das palavras, piadas, estátuas ou personagens da Fantástica Fábrica...

Globo

 Por Leandro Narloch Eu cresci, como muitos brasileiros, assistindo Jornal Nacional e Jornal da Globo. Quando me mudei pra SP, percebi que assistir o JN me fazia matar as saudades de casa: ele era parte da normalidade, da rotina reconfortante da casa da minha mãe. Mas hoje, como muitos brasileiros, eu não suporto os jornais da Globo ou da GloboNews. Quem mudou? Provavelmente ambos, mas deixa eu tentar entender por que o jornalismo da Globo me irrita tanto. Um primeiro motivo é a confusão entre jornalismo e lição de moral. Os jornais da Globo não querem apenas "informar o Homer Simpson", mas catequizá-lo. Não dão apenas notícias como antigamente (é legal assistir programas antigos pra ver a diferença). Também defendem a moral e os bons costumes politicamente corretos da época. A reportagem sobre pessoas na praia durante a pandemia não informa apenas que há pessoas na praia durante a pandemia - o repórter tem que fazer uma cara exagerada e artificial de reprovação. Volta para o...

Neocomunismo e a escatologização da democracia

Por Gustavo Maultasch Os "defensores da democracia" não desejam a democracia; eles desejam a utopia progressista. Se essa utopia vier pela democracia, ótimo, um trabalho a menos; mas se o povão insistir em ter valores diferentes, aí parte-se para a censura e para a retirada da liberdade de quem ousar pensar diferente. Tudo isso, claro, chamando o autoritarismo deles de "defesa da democracia", porque assim fica mais fácil de enganar muita gente (além de dar uma saída honrosa àqueles que querem ser enganados e precisam de um álibi para manter a auto-estima diante da própria passividade). Precisamos evitar a manipulação que impede as pessoas de terem a opinião certa! E qual a opinião certa? A dos escolarizados urbanos, que hoje compõem a maior parte das lideranças das instituições (academia, mídia, governo etc) e que foram fanatizados na visão de mundo do progressismo. A opinião "certa" do progressismo é a única possível; quem não concorda é porque foi alvo d...

Go f*ck yourself

Aqui está o contexto da fala de Musk sobre ser chantageado pela Disney. Valem os quase cinco minutos. “O que eu vejo em todo lugar são pessoas que se preocupam em ter uma boa aparência enquanto na verdade estão praticando o mal. Eles que se danem.” pic.twitter.com/w0uHvnmq82 — Matt Montenegro (@eusouomatt) November 30, 2023

O que é verdade – e o que é mentira – sobre o conflito Israel-Palestina

Por Rodrigo da Silva Com o desenrolar da guerra entre Israel e o Hamas, toneladas de propaganda viralizaram nas redes sociais nos últimos dias, distorcendo a realidade política da região. Uma luta vem sendo travada entre os defensores de Israel contra os defensores da Palestina. Essa é a hora de separar o que é História do que é ficção, e postar algumas verdades duras de engolir. Segue o guia: 1. Como é o sistema político de Israel? Israel é uma democracia parlamentarista com um sistema multipartidário. O parlamento de Israel é conhecido como Knesset. O Knesset é composto por 120 membros, eleitos para mandatos de 4 anos. Nesse momento, os partidos com mais membros no Knesset são o Likud (32) e o Yesh Atid (24). O Likud é um partido de direita, nacionalista, cético em relação a um processo de paz com os palestinos, liberal na economia e conservador nos costumes. O Yesh Atid, principal opositor do Likud, é um partido liberal, de centro, representante da classe média secular israelense,...