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Mostrando postagens com o rótulo ideologia

Massacre no Canadá levanta perguntas que podem dar cadeia no Brasil

Por Alexandre Borges Um ataque a tiros numa pequena comunidade do interior do Canadá reacendeu um debate que parte da cobertura internacional prefere evitar. A autora da tragédia desta terça-feira tinha 18 anos. Era um homem biológico que iniciou transição de gênero aos 12. Seu histórico médico incluía diagnósticos de depressão, autismo e transtorno obsessivo-compulsivo, além de internações sucessivas. Anos antes, durante um surto psicótico, incendiou o próprio quarto. A adolescente matou a própria mãe e o irmão de 11 anos ainda dentro de casa. Em seguida, caminhou armada até a escola onde havia estudado, no interior da Colúmbia Britânica, e abriu fogo contra alunos e funcionários. O atentado deixou mais oito mortos, entre eles cinco crianças entre 12 e 13 anos, além de dezenas de feridos. Após o atentado terrorista, tirou a própria vida. Parte da cobertura internacional evitou destacar que ela havia iniciado a transição na entrada da puberdade. A revista Newsweek preferiu enfatizar a ...

O silêncio da esquerda sobre a luta por liberdade no Irã

Por Lygia Maria O discurso antifascista e anti-imperialista de parte estridente da esquerda global é puro engodo. Quando Vladimir Putin dizima a Ucrânia, a culpa é da vítima. Quem mandou tentar se proteger de um autocrata expansionista? Quando quase mil civis israelenses foram assassinados e sequestrados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, muito barulho. Em apoio aos terroristas. Um dia após o ataque brutal, centenas se reuniram em Nova York louvando a resistência do povo palestino. Um dia. No Brasil, foram três. Em um mês, universidades nos EUA foram tomadas por protestos. Londres viu 300 mil manifestantes nas ruas em 11 de novembro. Mas as iranianas que rasgaram véus e se insurgiram contra o regime teocrático islâmico, em 2022, não tiveram direito a nenhum cartaz da esquerda que vive denunciando misoginia e dominação do patriarcado. É uma dissonância cognitiva que beira a patologia. A causa é o antiamericanismo da Guerra Fria que, aliado ao relativismo cultural pós-moderno,...

Baile de máscaras

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O identitarismo é um movimento punitivista

Por Lygia Maria O poder do Estado moderno não aumenta apenas pela imposição, mas por solicitação: quanto mais esse poder é acionado, mais se expande e se cristaliza. A sociedade sente medo (seja por crime, doença, moralidade ou desinformação) e demanda intervenção do Estado, que acata o pedido com criação ou recrudescimento de leis, regulações e vigilância. Como resultado, a sociedade passa a depender dessas novas estruturas de controle. Tal mecanismo, descrito por Michel Foucault, por décadas respaldou discursos e práticas de movimentos de esquerda que se opunham ao autoritarismo —inclusive o soviético. Mas o identitarismo solapa essa perspectiva. O Ministério Público Federal denunciou uma ativista paraibana por transfobia. O crime? Dizer numa rede social que "mulheres trans não são mulheres porque nasceram do sexo masculino". Na denúncia, aceita pela Justiça, a deputada federal do PSOL Erika Hilton é vítima, mesmo que não tenha sido citada nas postagens. A Políc...

Em busca do sexo perdido

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Charlie Kirk, o mártir da liberdade

Por Paulo Briguet Em “1984”, George Orwell descreve os Dois Minutos de Ódio, um ritual coletivo diário do qual os cidadãos de um país socialista são obrigados a participar: “Um êxtase horrendo de medo e vingança, um desejo de matar, de torturar, de esmagar rostos com um martelo, parecia percorrer todo o grupo de pessoas como uma corrente elétrica, transformando cada um, mesmo contra a vontade, num lunático carrancudo a berrar”. Esse trecho de Orwell representa com perfeição a atitude do militante esquerdista moderno. Tivemos uma clara demonstração de tal comportamento mimético após o assassinato do influenciador conservador Charlie Kirk, na última quarta-feira. As manifestações de êxtase e júbilo pela morte de Kirk, um brilhante debatedor de apenas 31 anos, foram vistas por toda parte. Nos Estados Unidos e no Brasil, militantes e mídias de esquerda celebraram a morte de Kirk — sem compaixão, sem vergonha. Para eles, esse é o destino merecido de todo cristão ou judeu conservador. ...

Não é Bolsonaro que vai a julgamento

Por André Marsiglia Não é Jair Bolsonaro que vai a julgamento. É o bolsonarismo. E o bolsonarismo vai a julgamento porque se tornou, para as elites de esquerda brasileira, a maior ameaça ao seu poder. Há muito, no Brasil, a esquerda passou a ser tratada como o padrão de normalidade: quem pensa à esquerda é moderado, sensato e equilibrado. Já quem assume um pensamento de direita é ideológico, diferente, perigoso e deve ser contido. O sonho dessas elites de esquerda é que a direita brasileira fosse para sempre o PSDB, o Geraldo, o Fernando Henrique, que nunca foram de direita, que eram uma esquerda no armário, quando muito, uma dissidência da própria esquerda. O sonho dessas elites de esquerda é que o Brasil tivesse na Presidência um torneiro mecânico, mas no cérebro do regime estivesse sua casta que fala francês e arrota verniz acadêmico. O sonho é que a oposição à esquerda fosse ela mesma disfarçada de divergência. Dessa forma, a direita bolsonarista e popular, sem polimento, vinda...

A miséria de um debate

Por Fernando Schuler Revista Veja - 12/07/2025 Lula resolveu dividir o país com sua campanha ricos contra pobres. É um teste para 2026. Discurso fácil, agita a militância, a turma invade o Itaú na Faria Lima, e gera algum frisson nas redes. O truque parece óbvio. A pauta dos últimos meses foi a crise fiscal. O ministro Haddad atrás de impostos, a dívida pública crescendo, o Instituto Fiscal Independente mostrando que o arcabouço fiscal é insustentável. E aí vem o troco: não há nenhuma crise fiscal, apenas ricos fugindo dos impostos. Mas não dava para fazer uma reforma na máquina pública? Cortar os supersalários, fazer reforma administrativa, rever incentivos? Esquece. É complicado, mexe com corporações, ninguém entende. O ex-presidente Michel Temer inventou essas reformas e saiu com 80% de rejeição. Melhor simplificar: a turma da Faria Lima não quer pagar mais IOF. Ponto. A guerra política expulsa a complexidade. Se vai funcionar, o futuro dirá. Sejamos claros: a pauta de xingar os mai...

Vamos acabar com os ricos (e com o Brasil junto)

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Por Stephen Kanitz Prepare-se: o Brasil viverá, nas próximas décadas, uma verdadeira caça aos ricos, tudo em nome de uma justiça social mal calculada e mal intencionada. O fenômeno já é visível nos Estados Unidos e na Europa, e por aqui não será diferente. Em vez de cortar gastos, eliminar desperdícios ou cobrar eficiência do Estado, a solução será simples e populista: aumentar os impostos para os que ganham mais. Tudo baseado em uma grande mentira: que os ricos “não pagam impostos”. Segundo essa ficção, eles escondem dinheiro em offshores, fazem “planejamento tributário agressivo”, têm contadores “criativos”. Mas a realidade é outra: essas estratégias apenas adiam impostos, não os eliminam, serão pagas e imediatamente gastas pelo governo. A verdade inconveniente? O 1% a 10% mais rico paga de 26% a 80% de todo o imposto arrecadado, dependendo de como se mede. Inversamente, 75% da população americana paga apenas 28% do total, e o Brasil segue padrão semelhante. Ou seja os mais r...

Ideia de que toda crítica a minoria é preconceito envenena democracia

Politização identitária transforma toda e qualquer crítica em crime moral e impede a continuidade do debate democrático Por Wilson Gomes Caros críticos, detratores e discordantes, saibam que eu sei que vocês só fazem isso comigo porque não sou branco, sudestino ou rico. O que automaticamente transforma críticas, ataques e divergências dirigidas a mim em atos infames de preconceito —e, portanto, condenáveis por qualquer tribunal moral. Um argumento desconfortável para vocês e muito conveniente para mim, não é? Já ganhei a discussão antes mesmo de lutar e ainda posso usar essa premissa como uma espécie de imunidade preventiva em qualquer situação futura. Afinal, o que poderia ser melhor do que o poder de desmoralizar antecipadamente qualquer acusação e de desqualificar qualquer crítico? E sem precisar apresentar razões ou evidências, apenas sendo quem eu sou: a vítima mais merecedora. Uma sociedade que considere isso um modelo normal de discussão pública está no caminho errado. Um ...

Nossa herança comum

Fernando Schuler, Veja - 21/02/2025 J.D. Vance fez um discurso inusitado na Conferência de Segurança europeia, em Munique. Plateia repleta de líderes do continente, grande expectativa, esperava-se que ele falasse de Putin, da guerra, mas Vance não se abalou: “O problema de vocês não são as ameaças que vêm da Rússia nem a China, mas o perigo que vem de dentro”, disse. E completou: “O recuo da Europa em seus valores mais fundamentais, que são os mesmos dos Estados Unidos”. Generosidade dele. Os valores europeus nunca foram os mesmos que os da formação americana. A inspiração que veio de Locke, Milton e do liberalismo inglês, que andava na cabeça dos fundadores da América, sempre foi um recorte muito específico da tradição europeia. O Velho Continente nunca teve nada semelhante à Primeira Emenda, garantindo a liberdade de expressão. E vem daí a raiva provocada pela fala de Vance. Na prática, ele deu um sermão na liderança europeia com base em deuses ou, ao menos, em credos não tão comun...

Árvore genealógica não é argumento no debate público

Importa o que indivíduos fazem, não o que seus antepassados fizeram; lógica identitária, obcecada por biologia, é divisiva Por Lygia Maria Um discurso racial perigoso emergiu na última semana. A psicanalista Maria Rita Kehl fez críticas ao identitarismo e, como resposta, foi linchada nas redes sociais a partir do argumento de que, além de branca, seu avô, Renato Kehl, era eugenista. Já Walter Salles foi alvo de um artigo de jornal cuja autora observa "cada traço fenotípico" do rosto do cineasta para concluir que, nele, enxerga "a descendência dos que torturaram, estupraram, açoitaram, mantiveram em cárcere meus ascendentes". Discurso racial, mas poderia ser racista, ao menos segundo a Convenção Interamericana contra o Racismo: "Racismo consiste em qualquer teoria, doutrina, ideologia ou conjunto de ideias que enunciam um vínculo causal entre as características fenotípicas ou genotípicas de indivíduos ou grupos e seus traços intelectuais, culturais e de pe...

No labirinto da tirania

Por Francisco Razzo Franz Kafka morreu sem imaginar que seu nome se tornaria um adjetivo. Hoje, no direito, tudo o que é confuso, burocrático ou absurdo ganha seu epíteto. Entre suas obras, O Processo é aquela que melhor representa o espírito de nossa época com inquietante precisão. Josef K., o protagonista, é acusado de um crime indefinido por um tribunal opaco, cuja lógica escapa à razão. Sua condenação é inevitável, não pela culpa, mas pela própria natureza labiríntica do sistema. Nosso ordenamento jurídico, em muitos aspectos, parece escrito por Kafka. Decisões brotam de critérios movediços, distantes do princípio fundamental da isonomia. Regras elásticas, definições ambíguas e justiça subjetiva substituíram a promessa de igualdade perante a lei. Quando se busca coerência, depara-se com o absurdo; quando se exige neutralidade, surge o arbítrio disfarçado de narrativa da reparação histórica. Um exemplo recente: o Superior Tribunal de Justiça brasileiro decidiu que injúria racial c...

A vítima nem sempre tem razão

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Negacionismo de esquerda

Por J. R. Guzzo A derrota arrasadora que a esquerda americana, brasileira e mundial acaba de sofrer na eleição presidencial nos Estados Unidos só pode ser comparada às análises dos seus pensadores sobre a torrefação da Grande Esperança Negra que inventaram para perder. Não conseguiram, até agora, deixar de pé um único pensamento coerente sobre o naufrágio. Estão em estado de choque, e tudo o que têm a apresentar é uma maçaroca de exclamações desesperadas, irracionais e sobretudo cegas. Não há obviamente como comentar uma derrota desse tamanho sem examinar o que há de errado na conduta de quem perdeu. A esquerda resolveu jogar a culpa nos vencedores. Ninguém está vendo o que anos seguidos da estratégia única de tratar Donald Trump como um demônio, em vez de um oponente político, produziram na vida real. Não parece ser nenhum fenômeno sobrenatural. O eleitor americano ficou exausto de ouvir coisas em que não acredita, basicamente por não fazerem nexo – e reagiu devolvendo a Presidê...

Vitória de Trump põe Lula, professores da USP e banqueiros de ‘pegada social’ em ansiedade extrema

Por J R Guzzo O Brasil tem acumulado angústias, ao longo de toda a disputa eleitoral pela presidência dos Estados Unidos, diante dos riscos de que o “fascismo” volte à face da Terra. Na verdade, não é o Brasil que está preocupado com o assunto. A população brasileira tem mais bom senso que toda a sua elite somada, e sabe perfeitamente, ou intui, que não existe uma única coisa de verdade na sua vida que possa ser ameaçada pelo “fascismo”. Sabe os perigos reais do seu dia a dia, que vão de uma droga de salário até o revólver que o ladrão aponta para a sua cabeça – e tem certeza de que a extrema direita não é um deles. Quem fica falando dia e noite disso são Lula, os professores da USP e os banqueiros com “pegada social” – e quem mais se inclui no seu mundo. Devem estar com a ansiedade em modo extremo, desde ontem, com a vitória de Donald Trump para a presidência americana. Segundo disse às vésperas eleição o presidente brasileiro, Trump vai trazer de volta para os Estados Unidos e o mund...

Lugar de fala é lugar de cale-se

O identitarismo perde feio em eleições, mas continua soberano nas universidades Por Wilson Gomes Quando escrevi esta coluna, eu ainda não sabia o resultado da eleição presidencial americana, mas você, caro leitor, provavelmente já sabe. Independentemente de quem venceu essa disputa, que pode influenciar decisivamente a eleição brasileira em dois anos, há questões que já estão claras para quem acompanha as cada vez mais frequentes competições em que a extrema direita se apresenta com grandes chances de vitória. A mais evidente delas, que afeta tanto as retóricas eleitorais quanto as perspectivas de políticas públicas e mudanças legislativas futuras, é a crise de popularidade da ideologia identitária. Para quem acompanhou a campanha americana, saltam aos olhos tanto o recuo na retórica identitária de Kamala Harris quanto o avanço, agora sem filtros, da agenda anti-identitária de Donald Trump . Como tudo ali é baseado em dados e cálculos eleitorais, o afastamento de Harris dessa retórica ...

Capitalismo e cristianismo

Por Olavo de Carvalho.  Artigo publicado originalmente na revista República – edição de dezembro de 1998. Uma tolice notável que circula de boca em boca contra os males do capitalismo é a identificação do capitalista moderno com o usurário medieval, que enriquecia com o empobrecimento alheio. Lugar-comum da retórica socialista, essa ideiazinha foi no entanto criação autêntica daquela entidade que, para o guru supremo Antonio Gramsci, era a inimiga número um da revolução proletária: a Igreja Católica. Desde o século XVIII, e com freqüência obsessivamente crescente ao longo do século XIX, isto é, em plena Revolução Industrial, os papas não cessam de verberar o liberalismo econômico como um regime fundado no egoísmo de poucos que ganham com a miséria de muitos. Mas que os ricos se tornem mais ricos à custa de empobrecer os pobres é coisa que só é possível no quadro de uma economia estática, onde uma quantidade mais ou menos fixa de bens e serviços tem de ser dividida como um bolo de a...

A fórmula para enlouquecer o mundo

Olavo de Carvalho Diário do Comércio, 11 de junho de 2007 Adam Smith observa que em toda sociedade coexistem dois sistemas morais: um, rigidamente conservador, para os pobres; outro, flexível e permissivo, para os ricos e elegantes. A história confirma abundantemente essa generalização, mas ainda podemos extrair dela muita substância que não existia no tempo de Adam Smith. O que aconteceu foi que o advento da moderna democracia modificou bastante a convivência entre os dois códigos. Primeiro elevou até à classe dominante o moralismo dos pobres: na América do século XIX vemos surgir pela primeira vez na História uma casta de governantes que admitem ser julgados pelas mesmas regras vigentes entre o resto da população. No século seguinte, as proporções se invertem: a permissividade não só se instala de novo entre a classe chique, mas daí desce e contamina o povão. É verdade que não o faz por completo: metade da nação americana ainda se compreende e se julga segundo os preceitos da Bíblia....