Guerra aos homens: a masculinidade sob ataque
Por trás da desconstrução do homem, esconde-se o objetivo mais amplo: destruir a cultura ocidental
Nine Borges
Nunca se demandou tanto que homens duvidassem de si mesmos. Instigados a revisitar constantemente a sua própria identidade, são lançados numa busca incessante por fragmentos de problematização. A palavra woke, do inglês "acordado" ou "desperto", emerge justamente desse campo semântico de vigilância permanente. Trata-se de um regime do qual nada escapa: o próprio indivíduo, suas relações, as instituições, o conhecimento herdado, e até mesmo a linguagem passam a existir sob suspeita.
É nesse escopo que se inicia um processo amplo de desconstrução, no qual ganha destaque uma tendência cultural de desvalorizar características tradicionais ligadas à masculinidade, como força, liderança, objetividade e proteção. Homens passam a ser incentivados a acreditar que sua masculinidade é tóxica e sua virilidade, sinônimo de opressão.
Corpos andróginos e emotividade apurada passam a ser qualidades evocadas para a edificação desse novo homem desconstruído, que não teme flertar com o seu lado feminino, usando maquiagem, saia ou se sensibilizando com filmes de alta carga emocional. É intrigante que o mesmo grupo que por anos afirmou que roupas, acessórios, brinquedos, preferências e comportamentos não tinham "gênero" hoje utilize esses mesmos tijolos, que outrora chamaram de estereótipos rígidos, para erguer o tal "novo homem". Explorar a estética feminina, com seus babados, rendas e cortes esvoaçantes, seria um símbolo de identidade transgressora e uma forma imaculada de sinalização de virtude.
Esse novo homem estaria disposto a passar por rituais de expurgo, centrados na demonstração de empatia, graciosidade, escuta atenta e, acima de tudo, na plena consciência do seu protagonismo na desgraça do mundo. Se esse homem for branco, ele precisará provar o seu valor e se redimir em dobro, pois acumularia dois pecados imperdoáveis: ser homem e ser branco.
Nessa leitura, nascer homem passa a ser tratado como um pecado original, imprescritível e sem possibilidade de absolvição. Não surpreende que haja tantos homens adeptos da cartilha da justiça social adotando identidades ambíguas que demandam pouca ou nenhuma transformação concreta, para além de ajustes estéticos e adição de novos pronomes no perfil das redes sociais, como no caso do não binarismo. Trata-se de um gesto simbólico: esse homem estaria comunicando publicamente a sua aliança com o lado "certo" da história e, ao mesmo tempo, atenuando a sua própria carga histórica que lhe é atribuída como "opressor".
Nada parece escapar dessa desconstrução. Recentemente, deparei-me com o conceito de "héteroflex", uma ideia que, aparentemente, descreveria homens que, embora se declarem heterossexuais, estariam abertos à experimentação sexual com parceiros do mesmo sexo. Mais do que sexualmente flexível, esse homem seria flexível diante das regras que antes o estruturavam. Trata-se de um homem bem resolvido que rejeita e desestabiliza as regras da atração heterossexual. Note que, com isso, encoraja-se uma reinterpretação da sexualidade humana como fluida e desvinculada de rótulos fixos, nesse caso, do sexo biológico. A atração sexual seria deslocada do corpo sexuado, que não passaria de um mero apêndice descartável, para a identidade do parceiro.
Fluidez, ambiguidade e indefinição caracterizariam esse novo homem. Uma matéria do jornal The Telegraph mostrou como escolas primárias no Reino Unido estariam utilizando Elliot Page, artista que atendia anteriormente pelo nome Ellen Page, e que hoje se descreve como um "homem trans", como exemplo positivo de masculinidade. Emerge, assim, um novo imperativo cultural: apenas o modelo de masculinidade que contém elementos de feminilidade, ou que é desempenhado literalmente por uma mulher, é aprovável. No cinema, personagens masculinos historicamente estoicos como James Bond e Napoleão Bonaparte passam a ser retratados como vulneráveis e erráticos, ao passo que personagens femininas passam a simbolizar força física e resiliência mental. O mesmo padrão de reversão pode ser observado em capas de revista, mesmo infantis ou educativas.
Além disso, a masculinidade tem sido utilizada como um proxy para explicar a agressividade de uma pequena parcela de homens violentos. Nesse entendimento, a violência deixa de ser tratada como um sintoma, traço de personalidade, ou desvio de caráter, e passa a ser equivocadamente fundida à própria essência do masculino, uma interpretação que constitui uma impostura não apenas estatística, mas também moral.
Sob a égide de proteger as mulheres de uma suposta natureza violenta masculina, avançam no Legislativo projetos que propõem a criminalização de homens, com base em conceitos ambíguos que, na prática, dependerão da subjetividade da pessoa que acusa ou da pessoa que julga. Gradualmente, delineia-se uma sociedade em que falar se torna um risco para homens, ao passo que a palavra feminina tende a ser investida de uma presunção quase incontestável.
A desacreditação do homem, a desmoralização da masculinidade e a desconstrução da sua sexualidade parecem ser apenas um fragmento de um processo mais amplo de desmantelamento e erradicação da própria noção de sexo biológico. Primeiro, popularizaram a ideia de que identidades de gênero existem como entidades à parte, sem vinculação à realidade material dos indivíduos. Ancorados na mesma malha teórica, defenderam a dissolução das bordas claras que distinguem o masculino do feminino. Em um desdobramento mais audacioso, iniciaram recentemente o processo de apagamento do conceito de sexo biológico por meio de ideias tão radicais quanto as de que “sexo não existe” ou é um "espectro", agenda esta liderada por pensadores queer. Tal projeto parece convergir para o mesmo objetivo: obscurecer as definições de homem e mulher, resultando na própria redefinição do ser humano.
Essa redefinição ultrapassa o campo teórico-conceitual, transbordando para a vida pública e induzindo uma reforma social gradativa. Ao desestabilizar categorias fundamentais da identidade pessoal, familiar e social, observa-se a erosão dos vínculos e o enfraquecimento dos papéis masculinos tradicionais, como estabilidade, resistência ou liderança. Uma engenharia social com potencial de remodelar a forma como homens se relacionam com as suas famílias, com a sua fé e com a sua pátria. Tais mudanças afetam negativamente referenciais masculinos clássicos, como paternidade, força e autoridade, agora frequentemente reinterpretadas como heranças patriarcais opressivas.
A quem interessa o avanço do projeto de redefinição do homem? Quem se beneficia de um mundo sem lideranças masculinas? A quem convém tornar a masculinidade fluida e sujeita a reescritas constantes? Que forças lucram com a construção de um mundo em que aqueles responsáveis pela infraestrutura moderna são reiteradamente desmoralizados como inerentemente maus?
Curiosamente, a desvirilização do homem pode ser observada em diferentes momentos da história das civilizações. Por exemplo, ao analisar um conjunto de sociedades ocidentais, a historiadora Camille Paglia identificou o mesmo padrão: a mudança nos costumes, na estética, nos papéis sexuais e a celebração de corpos e identidades ambíguas na literatura e na arte parecem preceder o declínio de eras civilizacionais. Diversos autores, de Platão a Allan Bloom, identificaram que o relativismo e a perda de referências culturais sólidas marcam momentos de transição entre sociedades, desencadeada por uma combinação recorrente de perda de coesão, refinamento excessivo e ambiguidade simbólica nos costumes e na arte. Estaríamos, uma vez mais, experimentando o encerramento de um ciclo de civilização? Se sim, o que nos aguarda no próximo estágio?
É notório que a redefinição do homem ocorre por todo o Ocidente e, geralmente, deixa a mesma impressão digital: repensar o homem implica repensar os próprios pilares da civilização ocidental. Note-se a contradição: o homem é considerado inerentemente violento ou perigoso, exceto o homem muçulmano. O homem é tratado como um potencial estuprador, exceto o homem que agora se declara como mulher.
Portanto, a desconstrução do homem só ocorre dentro de um recorte cultural específico e é demandada de um único perfil: o ocidental, especialmente o branco heterossexual. Por trás dessas propostas, esconde-se a mesma cartilha de rejeição ao Ocidente e a suas colunas fundamentais: a razão, o método científico, a moral cristã, as liberdades individuais, e claro, um de seus pilares político-econômicos mais importantes: a democracia liberal. Estamos diante do mesmo projeto anticapitalista de reinvenção do homem, agora sob nova direção e roupagem.
Ora, quando nada é fixo e tudo se torna objeto de questionamento, o ser humano vê-se fragmentado e à deriva, carente de âncoras morais, físicas, espirituais e emocionais que orientem a sua jornada existencial. Embora homens afeminados sempre tenham existido, o que se observa hoje é uma articulação que se estende da indústria do entretenimento à esfera institucional, dedicada a reconfigurar os referenciais de masculinidade, substituindo-os, lentamente, por um arquétipo instável e permanentemente sujeito à reinterpretação, redefinindo, assim, o próprio sentido do que é ser homem.
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