O Caso Monark: uma grande vergonha brasileira
Por Fernando Schüler
Monark estava apenas “expondo sua
(equivocada) compreensão sobre o alcance da liberdade de expressão”, escreveu o
Promotor Marcelo Ramos, do Ministério Público, em sua decisão encerrando o
bizarro caso de censura contra o antigo apresentador do Flow, no Youtube.
Muitas vezes, no Brasil dos
últimos anos, foi necessário escrever a mais perfeita obviedade. Só isso já
seria um sintoma do mal-estar brasileiro. Ou da simples “maluquice”, como gosta
de me resumir, meio sem paciência, um bom colega.
O promotor poderia ter evitado a
observação “equivocada”. Você e eu, cidadãos comuns, podemos opinar sobre isso.
Faz parte de nossa liberdade “pública” de opinião. Quem representa o Estado, em
uma decisão oficial, não deveria se aventurar por estes juízos. Mas entendo o
Promotor. Fez um aceno aos recalcitrantes. Sua decisão é correta e nos dá
alguma esperança neste País.
Não conheço Monark, nem escutava
o seu programa (o que talvez me faça um “alienado”). Mas perdi a conta de
quantas vezes tratei deste assunto, nos últimos anos. Lembro de quantas vezes
fui xingado por “defender o Monark”. Ou coisa pior, do tipo “defensor de
nazista!”.
No lixo da internet, e mesmo no
debate público mais elegante, muita gente não consegue fazer a distinção
simples desenhada pelo Promotor Ramos, em sua decisão. A diferença elementar
entre defender o direito de alguém dizer alguma coisa e a concordância com o
conteúdo do que é dito.
Essa diferença está na base de
nossa civilização moderna. O sujeito não era protestante, achava Lutero um
herege, mas ok, que façam lá o seu culto. No caso do Monark, o que ele fazia,
na prática, era uma crítica das leis brasileiras, que proíbem partidos
nazistas.
De minha parte, acho que a lei
acerta, nisso, mas o Monark acha que não. É um direito elementar de qualquer
cidadão discordar das leis de seu próprio País. Sem isso, lamento, não há
democracia nenhuma.
Meu ponto aqui é simples: da
loucura do mundo digital não há que se esperar grande coisa. Muita gente decide
viver subordinando critérios, regras e princípios ao gosto político. E isto
está longe de ser novidade. O que impressiona, neste e em tantos outros casos,
foi a adesão do Estado a esta maluquice. Monark foi processado pelo Ministério
Público, originalmente, em um caso muito tardiamente corrigido.
Impressiona também o transe na
sociedade. A quantidade de intelectuais, jornalistas e gente bem-formada que
sustentou durante anos essa pura e simples fakenews. A pergunta intrigante: por
que fizeram isso? Daria para enquadrar Monark como uma “grave ameaça à
democracia”? Isso ou qualquer um desses slogans malandros que animaram nossos
pequenos inquisidores, no Brasil recente? Risível.
No próprio programa em que foi
censurado, ele fazia um ótimo debate com deputados de visões opostas. Kim
Kataguiri, o liberal; Tabata Amaral, a socialista. Debate solto, descontraído,
do exato tipo que faz bem, não mal, à democracia.
Arrisco uma resposta: somos um
País de formação autoritária. À direita e à esquerda, não se enganem. Não foi
apenas Monark que passou por este calvário. Foi o mesmo com o PCO, com um
jornalista como Guilherme Fiuza, e ainda agora, com o Presidente da Unafisco. A
última lista que li preenchia mais de vinte páginas.
Ainda na outra semana cruzei com
o empresário Luciano Hang, em Porto Alegre, e me lembrei como ele foi censurado
por rigorosamente nada durante mais de dois anos. O roteiro é sempre muito
parecido: a punição absurda, o abuso judicial evidente, a turba ideológica
salivando, na internet. E o silêncio algo constrangido, na sociedade.
Outro ponto é que nos falta um
padrão. Liberdade de expressão é uma ideia contraintuitiva. Se há coisas
erradas e odiosas nesse mundo, por que não fazer logo uma grande faxina? Sem um
critério claro, como os americanos estabeleceram com o teste do “risco real e
imediato” (clear and presente danger), ficamos à mercê do mundo plástico
das interpretações. Dos juízos subjetivos de quem detém o poder. E é isto que
tem levado nosso poder judiciário a um show de decisões contraditórias sobre o
tema. Assistimos isso ainda agora, no caso do humorista Léo Lins.
Alguém dirá que está tudo lá, na
Constituição, que garante ser “livre a manifestação do pensamento”. Mas o fato
é que não basta estar escrito na Constituição. É preciso que isto esteja na
cabeça das pessoas. É preciso que o que está escrito faça sentido, na vida
real.
A Constituição também assegura a
imunidade parlamentar, mas nossos parlamentares são processados por palavras
ditas na tribuna do Congresso. Nossas leis vedam a censura prévia, mas ela foi
praticada à rodo, pela própria Suprema Corte, nos últimos anos.
No mundo fácil da retórica,
tendemos sempre a um bom e difuso respeito às liberdades. No mundo real, temos
um Estado que pune um apresentador, por dizer que há “homens e mulheres”; uma
cantora, por trocar o nome de uma divindade, em uma música; um pastor, por
chamar alguns generais de “covardes”, em um discurso. Quem sabe por falta de
virtude republicana, permitimos que a intolerância difusa, que povoa a
sociedade, na era digital, penetrasse nas instituições. E isto jamais deveria
acontecer.
O remédio para isto é uma certa
impertinência. Voltaire, no século XVIII, fez exatamente isto. Velho e
consagrado, ele se incomodou especialmente com o caso de Chevalier La Barre, um
rapaz nos seus 20 anos, provocador, condenado à tortura, decapitação e fogueira
sob a acusação de ter profanado um crucifixo e se recusado a tirar o chapéu,
diante de uma procissão.
A prova final do seu “crime” foi
um livro de Voltaire, encontrado em sua casa. Uma pequena cópia do “Dicionário
Filosófico”. Voltaire não conhecia La Barre, mas achou aquilo intolerável. Seu
ponto: os direitos de La Barre são os mesmos direitos de todos os franceses. Se
ele é atingido pelo fanatismo e pela desrazão, todos o somos. A partir daí, ele
se levanta. Diz que não aceita. Denuncia, mobiliza o mundo do poder, em Paris.
E com isso ajuda a definir um padrão de civilização.
No fundo, a história é feita
disso. De pessoas que, em tempos difíceis, quem sabe por uma estranha empatia
humana, agem com impertinência. Dizem “não”. Aceitam navegar contra a maré. Até
que o jogo vira, e o dia vai clareando, mais uma vez.
La Barre teve a língua cortada e
terminou sem a cabeça, torrado em uma fogueira. Há uma estátua dele em um
parque bucólico, perto da Igreja do Sacré Coeur, em Paris. Por vezes, um grupo
de pessoas vai até lá fazer uma celebração discreta ao livre pensamento, do
qual ele acabou se tornando um símbolo.
É possível que haja mesmo o que
celebrar. Hoje em dia não cortamos mais línguas. Apenas desligamos, multamos,
por vezes prendemos, destruímos carreiras e reputações. “Arrebentamos” a vida
profissional de um youtuber irreverente, um “brasileiro qualquer”, como escutei
por estes dias. E isto, vamos convir, é uma incrível vergonha.
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