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A douta ignorância

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Consenso científico

 Por Gustavo Bertoche Em 2015, Richard Horton, editor-chefe do Lancet – possivelmente o mais importante jornal científico de medicina no mundo –, declarou acreditar que "talvez metade" das pesquisas científicas publicadas em periódicos sejam fraudulentas. (Nada indica que as coisas tenham melhorado de 2015 para cá). Escreveu Dr. Horton: "O caso contra a ciência é simples: grande parte da literatura científica, talvez metade dela, pode simplesmente ser falsa. Atingida por estudos com amostras pequenas demais, efeitos minúsculos, análises exploratórias inválidas e evidentes confllitos de interesses, juntamente com uma obsessão por seguir tendências da moda – de importância duvidosa –, a ciência deu uma guinada na direção das trevas. Como um participante afirmou, 'métodos ruins geram resultados'. A Academy of Medical Sciences, o Medical Research Council e o Biotechnology and Biological Sciences Research Council colocaram a sua reputação em questão diante de uma inve...

Quando a Terra ficou azul

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Por Fabrício Caxito As primeiras fotos da exploração espacial imortalizaram a Terra como uma bola de gude azul. Um extraterrestre que dela se aproximasse no passado distante, porém, não veria os mares azulados cobertos por nuvens brancas. Nosso planeta tem cerca de 4,5 bilhões de anos, e hoje sabemos que ele sempre esteve em contínua mudança, os elementos químicos em permanente troca entre a biosfera, a atmosfera, a litosfera e a hidrosfera, e os processos tectônicos alterando o tempo todo sua fisionomia. Como teria sido a Terra? Por quase metade de sua vida, durante o Hadeano e Arqueano, a atmosfera terrestre era bem diferente da atual. O oxigênio era praticamente inexistente, como atestam minerais em rochas sedimentares mais velhas do que 2,5 bilhões de anos que não são estáveis na presença deste elemento. Hoje nossa atmosfera tem cerca de 21% de oxigênio. Sem isso, não estaríamos aqui. De onde ele teria surgido? Evidências fossilíferas e moleculares sugerem que entre 3,5 e 2,5 bilhõ...

Resenha: O Povo contra a Democracia

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Leia com cautela O Povo contra a Democracia é o terceiro livro de um dos autores mais aclamados pelo “mainstream” midiático no momento, Yascha Mounk. Doutor em Harvard e professor da John Hopkins, Mounk de fato alia rigor acadêmico a um verniz de honestidade intelectual para tentar explicar a nova dinâmica política que ocorre hoje no Ocidente.  Sua principal tese é a de que a democracia liberal vem se desconsolidando nas últimas décadas. Refutando o antigo consenso de estabilidade dos regimes democráticos, o autor demonstra que os atuais movimentos políticos estão tendentes a assumir posturas extremistas. O resultado seria a degeneração do regime democrático-liberal em dois outros intermediários no caminho até o autoritarismo: a democracia iliberal e o liberalismo antidemocrático.  O autor assume a hipótese de que as condições nas quais a democracia liberal vicejou não estão mais presentes, quais sejam, a homogeneidade étnica, o crescimento econômico contínuo e o...

Resenha: Buracos Negros

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Buracos negros têm cabelo? O livro “Buracos Negros”, do renomado físico Stephen Hawking, constitui-se da transcrição de duas palestras de quinze minutos, proferidas por ele à BBC em 2016. Trata-se de um apanhado geral sobre este que pode ser considerado um dos mais insólitos e curiosos fenômenos da natureza, provavelmente o que mais atrai a atenção dos leigos em astrofísica. Comentado pelo jornalista de ciência David Shukman, este pequeno texto de 62 páginas percorre o assunto de forma didática, ligeira, sem deixar de lado o tom humorístico, bem típico de Hawking. Em suma, ele demonstra em tais palestras o que são buracos negros de acordo com a ciência, bem como a evolução teórica em torno do tema. Explica que se compreende razoavelmente bem sua formação desde o colapso de estrelas massivas, mas muito se especula sobre as propriedades únicas desses cadáveres estelares. Como se dá a perda de informação quando se formam os buracos negros? Aliás, há perda de informação ou ela é a...

Resenha: 21 lições para o século 21

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O sombrio futuro da humanidade (ou mais um conto niilista) Yuval Noah Harari nos impressiona mais uma vez com seu novo livro. Se nas obras anteriores o autor tratou de esquadrinhar o passado e delinear as tendências do futuro, nesta Harari se ocupa do presente e enumera os desafios da humanidade para as próximas décadas. O cenário não poderia ser mais sombrio. Didaticamente, Harari explica que o mundo do Século XXI caminha para a superação (um eufemismo para o completo colapso) das democracias liberais, não tanto por uma problemática externa, como foi no século passado, mas por conta da disrupção tecnológica constante no campo das ciências informacionais e biológicas e da própria incapacidade humana de gerir problemas em larga escala.  Parece enredo de ficção científica? Sim, mas tal fato está mais próximo do que pensamos, como demonstra o autor. As democracias liberais provavelmente serão solapadas por essa disrupção tecnológica que pode produzir massas de humanos ir...

O que é ser um conservador?

A verdadeira postura conservadora pode surpreender a maioria Ser um conservador em nada se relaciona com um suposto saudosismo de eras passadas, ou com a manutenção de um sistema ético-moral baseado em tradições ancestrais. Ser conservador é ser prático: é admitir que o Ocidente moderno só obteve sucesso em difundir sua cultura e, no processo, dominar o mundo, tendo como base três pilares fundamentais: Capitalismo, Ciência e Estado Democrático de Direito.  Os dois primeiros foram resultado de um longo processo ocorrido ao longo de séculos, que incutiu na sociedade a ideia de progresso: o mundo pode ser melhor no futuro, desde que os seres humanos procurem o conhecimento. A aquisição de conhecimento gera confiança no futuro. Mais confiança significa que mais crédito pode ser disponibilizado, mais empreendimentos podem ser realizados e mais conhecimento pode ser produzido. A sociedade enriquece, num ciclo virtuoso ininterrupto. O terceiro pilar, Estado Democrático de Dir...