Postagens

Mostrando postagens com o rótulo identidades

Massacre no Canadá levanta perguntas que podem dar cadeia no Brasil

Por Alexandre Borges Um ataque a tiros numa pequena comunidade do interior do Canadá reacendeu um debate que parte da cobertura internacional prefere evitar. A autora da tragédia desta terça-feira tinha 18 anos. Era um homem biológico que iniciou transição de gênero aos 12. Seu histórico médico incluía diagnósticos de depressão, autismo e transtorno obsessivo-compulsivo, além de internações sucessivas. Anos antes, durante um surto psicótico, incendiou o próprio quarto. A adolescente matou a própria mãe e o irmão de 11 anos ainda dentro de casa. Em seguida, caminhou armada até a escola onde havia estudado, no interior da Colúmbia Britânica, e abriu fogo contra alunos e funcionários. O atentado deixou mais oito mortos, entre eles cinco crianças entre 12 e 13 anos, além de dezenas de feridos. Após o atentado terrorista, tirou a própria vida. Parte da cobertura internacional evitou destacar que ela havia iniciado a transição na entrada da puberdade. A revista Newsweek preferiu enfatizar a ...

O identitarismo é um movimento punitivista

Por Lygia Maria O poder do Estado moderno não aumenta apenas pela imposição, mas por solicitação: quanto mais esse poder é acionado, mais se expande e se cristaliza. A sociedade sente medo (seja por crime, doença, moralidade ou desinformação) e demanda intervenção do Estado, que acata o pedido com criação ou recrudescimento de leis, regulações e vigilância. Como resultado, a sociedade passa a depender dessas novas estruturas de controle. Tal mecanismo, descrito por Michel Foucault, por décadas respaldou discursos e práticas de movimentos de esquerda que se opunham ao autoritarismo —inclusive o soviético. Mas o identitarismo solapa essa perspectiva. O Ministério Público Federal denunciou uma ativista paraibana por transfobia. O crime? Dizer numa rede social que "mulheres trans não são mulheres porque nasceram do sexo masculino". Na denúncia, aceita pela Justiça, a deputada federal do PSOL Erika Hilton é vítima, mesmo que não tenha sido citada nas postagens. A Políc...

Em busca do sexo perdido

Imagem
 

Ideia de que toda crítica a minoria é preconceito envenena democracia

Politização identitária transforma toda e qualquer crítica em crime moral e impede a continuidade do debate democrático Por Wilson Gomes Caros críticos, detratores e discordantes, saibam que eu sei que vocês só fazem isso comigo porque não sou branco, sudestino ou rico. O que automaticamente transforma críticas, ataques e divergências dirigidas a mim em atos infames de preconceito —e, portanto, condenáveis por qualquer tribunal moral. Um argumento desconfortável para vocês e muito conveniente para mim, não é? Já ganhei a discussão antes mesmo de lutar e ainda posso usar essa premissa como uma espécie de imunidade preventiva em qualquer situação futura. Afinal, o que poderia ser melhor do que o poder de desmoralizar antecipadamente qualquer acusação e de desqualificar qualquer crítico? E sem precisar apresentar razões ou evidências, apenas sendo quem eu sou: a vítima mais merecedora. Uma sociedade que considere isso um modelo normal de discussão pública está no caminho errado. Um ...

Árvore genealógica não é argumento no debate público

Importa o que indivíduos fazem, não o que seus antepassados fizeram; lógica identitária, obcecada por biologia, é divisiva Por Lygia Maria Um discurso racial perigoso emergiu na última semana. A psicanalista Maria Rita Kehl fez críticas ao identitarismo e, como resposta, foi linchada nas redes sociais a partir do argumento de que, além de branca, seu avô, Renato Kehl, era eugenista. Já Walter Salles foi alvo de um artigo de jornal cuja autora observa "cada traço fenotípico" do rosto do cineasta para concluir que, nele, enxerga "a descendência dos que torturaram, estupraram, açoitaram, mantiveram em cárcere meus ascendentes". Discurso racial, mas poderia ser racista, ao menos segundo a Convenção Interamericana contra o Racismo: "Racismo consiste em qualquer teoria, doutrina, ideologia ou conjunto de ideias que enunciam um vínculo causal entre as características fenotípicas ou genotípicas de indivíduos ou grupos e seus traços intelectuais, culturais e de pe...

No labirinto da tirania

Por Francisco Razzo Franz Kafka morreu sem imaginar que seu nome se tornaria um adjetivo. Hoje, no direito, tudo o que é confuso, burocrático ou absurdo ganha seu epíteto. Entre suas obras, O Processo é aquela que melhor representa o espírito de nossa época com inquietante precisão. Josef K., o protagonista, é acusado de um crime indefinido por um tribunal opaco, cuja lógica escapa à razão. Sua condenação é inevitável, não pela culpa, mas pela própria natureza labiríntica do sistema. Nosso ordenamento jurídico, em muitos aspectos, parece escrito por Kafka. Decisões brotam de critérios movediços, distantes do princípio fundamental da isonomia. Regras elásticas, definições ambíguas e justiça subjetiva substituíram a promessa de igualdade perante a lei. Quando se busca coerência, depara-se com o absurdo; quando se exige neutralidade, surge o arbítrio disfarçado de narrativa da reparação histórica. Um exemplo recente: o Superior Tribunal de Justiça brasileiro decidiu que injúria racial c...

A vítima nem sempre tem razão

Imagem
 

Lugar de fala é lugar de cale-se

O identitarismo perde feio em eleições, mas continua soberano nas universidades Por Wilson Gomes Quando escrevi esta coluna, eu ainda não sabia o resultado da eleição presidencial americana, mas você, caro leitor, provavelmente já sabe. Independentemente de quem venceu essa disputa, que pode influenciar decisivamente a eleição brasileira em dois anos, há questões que já estão claras para quem acompanha as cada vez mais frequentes competições em que a extrema direita se apresenta com grandes chances de vitória. A mais evidente delas, que afeta tanto as retóricas eleitorais quanto as perspectivas de políticas públicas e mudanças legislativas futuras, é a crise de popularidade da ideologia identitária. Para quem acompanhou a campanha americana, saltam aos olhos tanto o recuo na retórica identitária de Kamala Harris quanto o avanço, agora sem filtros, da agenda anti-identitária de Donald Trump . Como tudo ali é baseado em dados e cálculos eleitorais, o afastamento de Harris dessa retórica ...

Etnia, gênero e orientação sexual pesam mais que argumentos

Por Eduardo Affonso Existe a lógica matemática (se A > B e B > C, logo A > C) e existe a da brincadeira infantil em que a pedra amassa a tesoura, que corta o papel, que embrulha a pedra. Nesta, cada elemento é forte e fraco, maior e menor, vencedor e derrotado, a depender da circunstância. Quem inventou esse jogo devia estar querendo ensinar às crianças que tudo é relativo e — mais que isso — que o mundo dos adultos não é para principiantes. Com a distorção (intencional) do conceito de “lugar de fala”, critérios como etnia (equivocadamente chamada de “raça”), gênero (outrora conhecido como “sexo”) e orientação sexual passaram a ter mais relevância que os argumentos. Mas ninguém ainda definiu a hierarquia, o peso de cada um desses fatores. Numa discussão entre uma mulher branca e um homem preto, quem tem razão? A cor da pele prevalece sobre o gênero, assim como a tesoura sobre o papel? E entre uma mulher cis e um homem trans? A identidade de gênero será agora a pedra que esmaga...

Armadilha Identitária

 Por Fernando Schüler ”Ansiosa para ser presa quando voltar ao berço do iluminismo escocês”, escreveu J.K. Row­ling, autora de Harry Potter, em um tuíte. Row­ling fazia referência à nova “lei de crime de ódio” que entrou em vigor na Escócia, este ano. A lei menciona uma lista de grupos “protegidos”, ligados a gênero, idade, orientação sexual etc., e diz que atitudes “que uma pessoa razoável consideraria ameaçadora” são passíveis de punição. Caberá à polícia e aos juízes dizer exatamente o que isso significa, e não é difícil imaginar a confusão que a nova lei está causando. Ela é um bom exemplo de um traço de nossa época, definido como “safetyismo” pela psicóloga Pamela Paresky. A ideia de que nos tornamos subitamente frágeis — ou, ao menos, seletivamente frágeis. E que, portanto, precisamos ser protegidos. Pelo Estado, pelas empresas, pela polícia, como agora faz a Escócia. E protegidos não apenas da violência, mas das palavras, piadas, estátuas ou personagens da Fantástica Fábrica...

A fúria 'woke' nas empresas e universidades é um fato de nossa época

Por Fernando Schüler Ela foi demitida por e-mail. “Pedimos que você deixe sua posição, imediatamente”, dizia o texto. O trabalho era voluntário. A demitida era Fran Itkoff, uma senhora de 90 anos, que há sessenta se dedicava à Sociedade Nacional de Esclerose Múltipla (MS Society). O marido havia se tratado lá, e ela também, além de ter recebido prêmios pelo seu trabalho. Não adiantou. Seu pecado foi ter se atrapalhado no uso dos pronomes, conforme definido pela área DEI (“Diversidade, Equidade e Inclusão”) da instituição. “Não conseguia entender”, disse ela, “quais os termos podiam ou não ser usados”. Resumindo: foi para a rua. “É irônico”, disse sua filha, “porque eles se dizem inclusivos, mas excluem uma mulher deficiente de 90 anos, voluntária há sessenta”. O caso veio a público, causou comoção, muitos apoiadores da MS Society ameaçaram retirar suas doações, e a entidade voltou atrás. Tem sido a regra. Se um caso como este vem à tona, a fúria woke é contida. Ao menos por algum tempo...

Racismos

  Por Wilson Gomes, professor da UFBA   Racismo é um tipo de preconceito social que, supondo que os humanos se dividem em raça, como outros bichos, considera que pelo menos uma delas é composta por humanos inferiores. Me parece banal, não? Acho que esta é mais ou menos a compreensão comum de racismo. E bem sensata.   Os identitários e os complacentes que os cercam tomaram há alguns anos a decisão de que, não, racismo não era mais isso. E criaram um conceito alternativo com dois objetivos: dar uma excludente de ilicitude para membros de certos grupos e atribuir o monopólio do racismo a outro grupo.   Há alguns dias pedi que me dessem um fundamento racional para o dogma segundo o qual é impossível a qualquer outro grupo, exceto os brancos, ser racista e agir com racismo. Em suma, pedi que conceito de racismo é esse em que só um tipo de humano pode praticar e o outro, sofrer.   Sem respostas. Citaram uma interpretação da lei brasileira, mas eu não p...

Conflito entre gerações: dinheiro e investimento

Por Leandro Ávila Acredito que vivemos um conflito, talvez uma verdadeira guerra entre gerações. Ela já está produzindo consequências com relação ao consumo, dinheiro, investimentos e funcionamento dos governos e das empresas. Cada vez mais essas novas gerações assumirão o controle de empresas, instituições financeiras e postos do governo e as consequências serão difíceis de prever. Se você trabalha duro, poupa e investe para conquistar a sua independência financeira ( como descrevi nesse livro ), você deve se preparar para o mundo que nos espera. Vamos entender isso melhor. De forma genérica, se costuma classificar as gerações como apresentado logo abaixo. Isso não significa que todas as pessoas carregam as mesmas características de sua geração. Muitas se identificam com gerações anteriores ou possuem características mais ou menos acentuadas de sua geração. De qualquer forma, entender o “espírito” que permeia a mente de uma geração nos ajuda a refletir. Baby Boomers: nascidos entre o ...

A fantástica fábrica de neuróticos

Imagem
 

Tolkien usurpado

Imagem
John Ronald Reuel Tolkien, J. R. R. Tolkien ou simplesmente Tolkien, foi o filólogo e romancista inglês responsável pela criação do épico de fantasia mais influente de todos os tempos, O Senhor dos Anéis . Uma obra rica e impressionante, foi pensada a partir de várias influências sociais, religiosas, místicas e linguísticas, tornando-se não só um marco da literatura de alta fantasia, mas também um ícone da cultura de massa da segunda metade do Século XX.  Após a morte de Tolkien, em 1973, os direitos autorais da obra foram reunidos sob seu espólio, cuja administração incumbia a Christopher John Reuel Tolkien, terceiro filho do falecido escritor. Ferrenho advogado da memória de seu pai, Christopher editou vários livros póstumos, com estórias inéditas e compilações de alguns de seus rascunhos sobre o mundo de Arda, os quais não haviam sido publicados durante a vida do autor.  Sua obstinação em manter a integridade da obra era notória, de modo que conseguiu afastar por décad...