Massacre no Canadá levanta perguntas que podem dar cadeia no Brasil
Por Alexandre Borges
Um ataque a tiros numa pequena comunidade do interior do Canadá reacendeu um debate que parte da cobertura internacional prefere evitar.
A autora da tragédia desta terça-feira tinha 18 anos. Era um homem biológico que iniciou transição de gênero aos 12. Seu histórico médico incluía diagnósticos de depressão, autismo e transtorno obsessivo-compulsivo, além de internações sucessivas. Anos antes, durante um surto psicótico, incendiou o próprio quarto.
A adolescente matou a própria mãe e o irmão de 11 anos ainda dentro de casa. Em seguida, caminhou armada até a escola onde havia estudado, no interior da Colúmbia Britânica, e abriu fogo contra alunos e funcionários. O atentado deixou mais oito mortos, entre eles cinco crianças entre 12 e 13 anos, além de dezenas de feridos. Após o atentado terrorista, tirou a própria vida.
Parte da cobertura internacional evitou destacar que ela havia iniciado a transição na entrada da puberdade.
A revista Newsweek preferiu enfatizar a reação política ao caso, com o título "Direita reage após atiradora ser identificado como trans", deslocando o foco do histórico clínico. Já a emissora pública canadense CBC publicou reportagem centrada na circulação de alegações falsas nas redes sociais sobre a identidade da agressora e teorias conspiratórias associadas ao crime.
Os registros médicos documentados, com diagnósticos de depressão, autismo e TOC, os surtos e internações sucessivas, receberam menos atenção do que deveriam.
Outra linha escapista previsível foi a tentativa de deslocar o foco para as armas, como se objetos inanimados cometessem crimes.
Reportagens compararam estatísticas entre Estados Unidos e Canadá, apesar de o país já possuir uma das legislações mais restritivas do Ocidente. Desde 2020, o governo ultraprogressista canadense proibiu cerca de 2.500 tipos de armas. A licença da assassina estava vencida, as armas usadas não estavam registradas em seu nome e a polícia já havia apreendido armamentos da residência anteriormente.
Era uma tragédia anunciada.
O padrão de cobertura lembra episódios anteriores semelhantes em que aspectos relevantes da identidade de agressores foram relativizados ou tratados como tabu por serem politicamente explosivos. Perguntas sobre saúde mental passaram a ser recebidas com perseguição judicial e midiática, o que constrange a discussão científica séria e urgente, livre da polícia política de pensamento.
Ninguém sério afirma que jovens trans são automaticamente violentos. A própria literatura disponível indica que esses casos ainda representam uma fração mínima dos ataques em massa, ainda amplamente concentrados em homens biológicos. Mas bloquear o debate sobre riscos psiquiátricos associados a intervenções médicas precoces em crianças não ajuda a prevenir novas tragédias.
A mãe da agressora defendia publicamente a causa trans. Meses antes de ser morta pela filha, publicou nas redes sociais um apelo contra o que descrevia como hostilidade direcionada a jovens em transição de gênero. A assassina vivia num país desenvolvido, tinha acompanhamento médico constante e apoio familiar, e nada disso impediu a tragédia.
Infelizmente, não é um caso isolado.
Snochia Moseley abriu fogo em um centro de distribuição em Aberdeen, Maryland, deixando três mortos e três feridos antes de atirar contra si. Amigos relataram depressão profunda e transtorno bipolar, além de processo de transição em curso.
Alec McKinney participou de um ataque a uma escola em Highlands Ranch, Colorado. Um estudante morreu e oito ficaram feridos. McKinney declarou que planejou o crime como vingança por bullying e foi condenado à prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional após quarenta anos.
Anderson Lee Aldrich invadiu a boate Club Q, em Colorado Springs, matou cinco pessoas e feriu dezenas. Após a prisão, passou a se declarar não binário em documentos judiciais. O processo terminou com múltiplas condenações à prisão perpétua por crimes de ódio e uso de armas.
Audrey Elizabeth Hale entrou armada na Covenant School, escola cristã em Nashville, e matou seis pessoas, três delas crianças de nove anos. Investigações apontaram histórico de autismo, transtorno obsessivo-compulsivo e sofrimento psíquico prolongado.
Robin Westman atacou a Annunciation Catholic School, em Minneapolis, deixando duas crianças mortas e dezenas de feridos. Diários apreendidos indicaram planejamento detalhado e menções à própria trajetória de transição de gênero, seguida de arrependimento e ressentimento com a família.
O assassinato de Charlie Kirk também levantou questionamentos. Tyler James Robinson, autor do ataque, não se identificava como trans, mas vivia com um namorado em processo de transição e era ativista da causa trans, além de politicamente radicalizado.
Não há evidência científica que sustente a ideia de uma epidemia de atiradores trans. Ainda assim, pesquisadores têm apontado taxas elevadas de ansiedade, depressão, pensamentos suicidas e múltiplas comorbidades psiquiátricas entre adolescentes diagnosticados com disforia de gênero. Estudos comparativos indicam maior incidência de diagnósticos psiquiátricos até mesmo em relação a irmãos sem disforia.
Uma revisão independente encomendada pelo sistema público de saúde da Inglaterra e conduzida pela pediatra Hilary Cass, publicada em abril de 2024, classificou como muito baixa a qualidade das evidências científicas sobre intervenções médicas de transição em menores. Após o relatório, o serviço público britânico restringiu o uso de bloqueadores de puberdade fora de pesquisas acadêmicas.
No Brasil, apenas questionar esses dogmas pode ter consequências legais graves.
Em 2019, o Supremo Tribunal Federal equiparou condutas consideradas "transfóbicas" ao crime de racismo, ampliando o risco jurídico no debate público. O que é exatamente transfobia? Como realizar um debate maduro, responsável e racional, baseado em evidências médicas sólidas, num ambiente de criminalização da própria discussão?
Desde então, mulheres que questionam a aplicação da ideologia de gênero em espaços femininos passaram a responder judicialmente por suas opiniões.
A advogada Nine Borges se tornou ré em processo relacionado a manifestações totalmente justificáveis e sólidas sobre a política de identidade de gênero. A escritora Isabela Cêpa também enfrentou ações judiciais por declarações sobre sexo biológico baseadas no senso comum. A associação Matria, formada por feministas que defendem as mulheres biológicas, acumula notificações judiciais por seus posicionamentos públicos.
Muitas perguntas infelizmente permanecem abertas.
Uma criança com múltiplos diagnósticos psiquiátricos possui capacidade plena para consentir em intervenções médicas com efeitos permanentes sobre fertilidade, ossos e desenvolvimento cerebral?
Se um paciente submetido a qualquer outro tratamento experimental cometesse um crime dessa magnitude, a imprensa evitaria discutir o protocolo médico envolvido?
Mortes como as desta semana no Canadá mostram que evitar perguntas não impede tragédias. Ignorar dados clínicos, históricos e institucionais também não protege ninguém.
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