Lula na Sapucaí: desfile não foi a favor do petista, foi contra você




Por Alexandre Borges



O espetáculo degradante protagonizado pela Acadêmicos de Niterói ontem, em uma leitura apressada, pode parecer apenas uma parada norte-coreana de culto ao líder supremo, com direito a mitificação da trajetória, demonização de adversários e estátua para reverência ao final. Foi isso e muito mais.

A comissão de frente trouxe Jair Bolsonaro representado como o palhaço Bozo, um xingamento infantil baseado em um trocadilho descerebrado. O ex-presidente apareceu novamente, em um carro alegórico horrendo, como um enorme monstro aprisionado, um King Kong acorrentado para deleite do público. Na história original, o animal se livra das correntes.

Outro carro apresentou a oposição a Lula como um bloco composto pelo agronegócio, mulheres de classe alta, defensores da ditadura militar e cristãos. Todos aqueles que esquecem, por vezes, que têm um alvo na testa por revolucionários de todas as eras.

Outra ala baseada em trocadilho infantil foi intitulada "Neoconservadores em conserva". A família tradicional foi colocada dentro de uma lata de conserva para ser ridicularizada, tudo ao som de "Olê, olê, olê, olá, Lula! Lula!" e muita gente fazendo o "L".

O ditador Getúlio Vargas, um obcecado pelo culto à própria personalidade, se orgulharia de tanta subserviência "popular" regada a dinheiro público. Seu Departamento de Imprensa e Propaganda aplaudiria de pé.

O contencioso jurídico virá, evidentemente, mas deve terminar em um "ai, ai, ai" e na desmoralização final da lei eleitoral, que só existe para uso seletivo e casuístico. O ponto central é outro.

Em uma leitura mais atenta, o que se viu foi um reconhecimento involuntário, mas inegável e despudorado, do que é a essência do projeto político dos revolucionários modernos desde a Revolução Francesa: um ataque frontal à família, à religião e a qualquer instituição que ouse servir de intermediário e camada de proteção entre o indivíduo e o Estado totalitário. Tudo que foi enfiado na "lata de conserva".

Alexis de Tocqueville alertou, há dois séculos, que a democracia corre sempre o risco de produzir um tipo dissimulado de despotismo: um poder que, sem recorrer à violência explícita, vai dissolvendo gradualmente os vínculos intermediários que protegem o indivíduo do controle estatal até sobrar apenas o grande timoneiro, sua corte e seus súditos.

Tocqueville chamou esses vínculos de corpos intermediários. Edmund Burke, poucos anos antes, já havia se referido ao que batizou de "pequenos pelotões", as lealdades essenciais que estruturam a vida social antes do Estado, a saber: família, igreja, associações comunitárias livres e a tradição, tudo que foi atacado, da maneira mais vulgar, pelos "acadêmicos" de Niterói.

Quando essas instituições enfraquecem, o indivíduo fica isolado diante do poder do Estado. E um indivíduo isolado é infinitamente mais governável do que um cidadão com raízes, propósito, laços afetivos e autonomia.

Aristóteles já entendia a família como núcleo essencial da formação da pólis, da qual tudo se deriva. O ser humano nasce incompleto e se torna homem pleno em uma construção que dura anos, forjado pelo amor, proteção e provimento de pais, amigos e da comunidade.

Desde os Dez Mandamentos, a tradição judaico-cristã já estrutura a ordem moral a partir da família e dos laços afetivos com o próximo.

O Estado nunca é absoluto. Quando Cristo diz "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mateus 22,21), estabelece uma separação clara entre Estado e religião, instâncias complementares e não concorrentes. São Paulo, na Carta aos Romanos (Romanos 13,1-4), reconhece a autoridade civil, mas dentro de uma ordem moral superior, alicerçada em Deus e no direito natural.

O Estado de inspiração judaico-cristã não é um deus, apenas uma entidade administrativa e gerencial que deve buscar o bem comum e o respeito à vida.

O Êxodo, segundo livro da Bíblia, é uma metáfora política clara dessa distinção, um épico que conta a história do povo escolhido que foge da escravidão no Egito, Estado totalitário comandado por faraós que se acham deuses, para uma terra em que apenas Deus é Deus.

O projeto de ruptura com a moralidade fundadora do Ocidente tem seu momento mais marcante na Revolução Francesa, quando as instituições herdadas por uma elite fútil, niilista, radical, entediada e hedonista passam a ser vistas como obstáculos a uma sociedade "igualitária". A guilhotina era questão de tempo.

Em "A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado", Engels afirma que a família é uma criação artificial fabricada para proteger a propriedade privada. A luta de classes marxista é transposta para dentro de casa. O homem é o opressor; a mulher, o oprimido. A família, claro, precisa ser superada. Ou, se você for um carnavalesco, presa em uma lata.

A Escola de Frankfurt, com Adorno, Horkheimer e depois Marcuse, desloca a crítica social ainda mais para a cultura. A família passa a ser vista como fábrica da "personalidade autoritária". A repressão moral é apresentada como mecanismo de reprodução do capitalismo e do "fascismo".

Muito antes deles, o Marquês de Sade já atacava a família e a moralidade cristã. Defendia a prostituição generalizada como forma de dissolver a estrutura familiar tradicional e "libertar" o indivíduo de qualquer vínculo estável.

Na mesma noite em que a Acadêmicos de Niterói tratava Lula como um Kim Jong-un pernambucano, a Unidos do Porto da Pedra, na Série Ouro, levou à Sapucaí o enredo "Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite", exaltando a prostituição.

Há quem pense que é coincidência.

De um lado, a exaltação de líder político messiânico. De outro, a celebração da prostituição como pauta de libertação da família. São ideias que rimam.

O desfile da Acadêmicos de Niterói não foi apenas uma aberração eleitoral, mas um ato falho totalitário e jacobino. Quem já foi chamado de paranoico por isso pode dormir tranquilo. A conspiração de ontem é a verdade de hoje e a lei de amanhã.

Quando o Estado é tudo, você não é mais nada. Uma lição que as repúblicas de banana nunca vão aprender.

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