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Conto: Nero

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NERO A pesada porta de metal se abriu num estrondo. Dela, emergiram dois homens sisudos vestindo jalecos desbotados, ambos portando pranchetas com prontuários e listas. Defronte a eles, longilíneo corredor, branco, rigidamente asseado, fluorescente: um aspecto de hospital, de laboratório; contudo, o odor que emanava do lugar era digno do mais imundo estábulo; os sons, de um zoológico. Lentamente, adentraram-no, ignorando a reinante cacofonia de gritos animalescos. A galeria possuía recorrentes portas gradeadas, as quais permitiam a investigação dos lúridos cativeiros que divisavam. Em cada um, variados espécimes, desde cães, roedores, pequenos répteis até grandes símios. Todos reduzidos às mais abjetas condições. Ali, a tarefa dos humanos de jaleco era inspecionar a miséria animal e submetê-los a sórdidos experimentos. No final da galeria, havia uma câmara indiscutivelmente protegida. Escudada por imponente portão de aço negro, só se entrava em seu vestíbulo porta...

Tudo ou nada

Fomos às ruas. Chamaram-nos de fascistas, de golpistas. Mas aqui estamos. A maioria não entende o que está ocorrendo. Acreditam em narrativas mentirosas ou deixam-se dominar pelos sentimentos de repugnância que o atual governante lhes traz. Uns poucos entendem e querem deliberadamente tirar proveito do caos, da desordem. Contra estes que lutamos. O Presidente Bolsonaro foi eleito porque representava uma resposta ao projeto de sociedade da esquerda. Também, condensava a revolta do cidadão comum contra o sistema de poder vigente, contra as políticas falidas que levaram o país à sua derrocada econômica, fiscal e moral. Vendeu-se a imagem de outsider . Os críticos sérios dizem que foi apenas discurso de campanha, que o candidato já estava integrado ao sistema, haja vista as duas décadas como parlamentar de pequena influência e as estranhas narrativas envolvendo sua família. Não estão de todo errados; todavia, os argumentos não são suficientes para aplacar as reivindicações populares. ...

Poderes irrecorríveis

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No princípio do Século XX, Ruy Barbosa, o maior jurista que este país já teve, enunciava com grande sabedoria: "A pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer". De fato, já naquela época, o eminente pensador antevia que uma das formas de se evitar arbítrios dentro do Estado era desconcentrar o poder, inclusive aquele contido na mão dos togados. Depois de mais de cem anos, o pensamento de Ruy Barbosa mantém-se vivo. Embora se possa argumentar que a Nova República trouxe inegáveis avanços civilizatórios, há também diversos retrocessos que não podem mais desvanecer da vista do povo. Um deles diz respeito ao sistema político instaurado quando da redemocratização. Dentre todas as críticas que sofre, uma frequentemente passa desapercebida: a falta de controle que se exerce sobre o Poder Judiciário.  Cada juiz, em si mesmo, é uma mini república, repleta de garantias institucionais, financeiras e políticas. Antes assim que um Judic...

Conto: Vocação

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VOCAÇÃO Fumava ostensivamente na rua repleta de transeuntes do centro da cidade. Desviando dos passantes, tossia com frequência, uma expectoração curta e escarrada que, para um observador atento, parecia ser sintoma de alguma perturbação interna. Meneava a cabeça em reprovação, andava em círculos, as mãos agitadas com o cigarro. Terminado-o depois de breves minutos, deu um peteleco no toco incandescente e retornou ao trabalho, subindo as escadas empoeiradas do prédio à sua frente.  Após alguns lances, já estava exausto. Os pulmões, doentes por causa do fumo, não suportavam aquele suplício. "Maldito seja esse elevador estragado!", rugiu em sua mente perturbada. Chegou finalmente ao quarto andar, transpirando e cheirando a nicotina. Passou direto pela recepcionista sem falar coisa alguma e voltou ao cubículo onde realizava os afazeres diários. Mal havia se instalado, começou a batucar na mesa com uma caneta, nervoso. Não sabia direito o que fazia em meio a pilhas d...

Conto: Encontro com Negroni

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ENCONTRO COM NEGRONI Andava de um lado para o outro dentro do pequeno quarto. Estava impaciente. Não aguentava mais a espera e, por isso, abriu um maço de cigarros de palha. Foi até a cozinha e acendeu um deles no fogão. Deu um trago e soprou a fumaça na janela, enquanto olhava o movimento lá embaixo. Um nome não saía da sua cabeça: "Negroni". Ouviu a porta sendo destrancada. Era sua mãe: - Fumando de novo, Daniel?! Apaga logo essa merda! Da próxima vez te expulso daqui! Como era de seu costume, Daniel não disse coisa alguma, apenas mirou a velha com um olhar vazio, caminhou até seus aposentos e trancou-se. Enquanto esperava o cair da noite, fumou o restante do cigarro no banheiro. Às oito em ponto, vestiu seu casaco e saiu. Encontrou seus amigos no posto da esquina. Pouco falava, mas isso não os surpreendia. Daniel era conhecido por seu comportamento errático e raciocínio confuso. Momentos de silêncio geralmente eram intercalados com alguns de grande agitação...

Conto: Incidente no hotel

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INCIDENTE NO HOTEL Era quase meio-dia e, pela vitrine do saguão do hotel, via-se o fluxo intenso de pessoas e automóveis na rua. Prostrado junto ao carrinho de malas, como que não dormisse há vários dias, Rodrigo aguardava uma cliente finalizar os procedimentos de reserva no balcão para que pudessem se deslocar até o quarto. Mais um dia de rotina na vida de Rodrigo, sujeito meio abobado de quase quarenta anos, sem muitas pretensões na vida, e que há bastante tempo trabalhava naquele hotel do centro da cidade. Gostava daquele emprego, não tanto por causa do salário (que era praticamente miserável), mas pela curiosidade doentia que tinha em bisbilhotar a vida alheia. Era quase um "voyeur", que percebia nos outros um refúgio para sua existência atribulada.  Minutos depois, estava no elevador com a hóspede, enquanto sua mente divagava. Como lhe era habitual, fantasiava sobre a vida de cada visitante que chegava no hotel. Não tinha escrúpulos quando imaginava sobre...

O grande acordo e seus inimigos

Após a tempestade pouco amena das eleições de 2018, é de se perguntar qual será o rumo do país daí em diante, para além das narrativas de campanha. Há, no presente, a urgência de se solver o Estado Brasileiro. Durante as eleições, pouco se debateu a respeito, mas impera resolver a questão fiscal e econômica do Brasil. Este caminha para se tornar uma nova Grécia caso nada seja feito, pois a previdência (tanto a do regime geral quanto a dos servidores públicos) é inviável no longo prazo. Não há, também, de onde tirar mais recursos da sociedade, sufocada pelo complexo sistema tributário brasileiro, o que leva a crescentes déficits na esfera pública. Por isso, deve haver um grande acordo nacional. Sem capacidade de diálogo e de transigência, os diversos grupamentos políticos podem arrastar o país para o abismo. No entanto, existem problemáticas que obstam o prosseguimento do acordo. Uma delas é a animosidade que ainda viceja da campanha eleitoral. De um lado, boa parte da populaçã...