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Conto: Vocação

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VOCAÇÃO Fumava ostensivamente na rua repleta de transeuntes do centro da cidade. Desviando dos passantes, tossia com frequência, uma expectoração curta e escarrada que, para um observador atento, parecia ser sintoma de alguma perturbação interna. Meneava a cabeça em reprovação, andava em círculos, as mãos agitadas com o cigarro. Terminado-o depois de breves minutos, deu um peteleco no toco incandescente e retornou ao trabalho, subindo as escadas empoeiradas do prédio à sua frente.  Após alguns lances, já estava exausto. Os pulmões, doentes por causa do fumo, não suportavam aquele suplício. "Maldito seja esse elevador estragado!", rugiu em sua mente perturbada. Chegou finalmente ao quarto andar, transpirando e cheirando a nicotina. Passou direto pela recepcionista sem falar coisa alguma e voltou ao cubículo onde realizava os afazeres diários. Mal havia se instalado, começou a batucar na mesa com uma caneta, nervoso. Não sabia direito o que fazia em meio a pilhas d...

Conto: Encontro com Negroni

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ENCONTRO COM NEGRONI Andava de um lado para o outro dentro do pequeno quarto. Estava impaciente. Não aguentava mais a espera e, por isso, abriu um maço de cigarros de palha. Foi até a cozinha e acendeu um deles no fogão. Deu um trago e soprou a fumaça na janela, enquanto olhava o movimento lá embaixo. Um nome não saía da sua cabeça: "Negroni". Ouviu a porta sendo destrancada. Era sua mãe: - Fumando de novo, Daniel?! Apaga logo essa merda! Da próxima vez te expulso daqui! Como era de seu costume, Daniel não disse coisa alguma, apenas mirou a velha com um olhar vazio, caminhou até seus aposentos e trancou-se. Enquanto esperava o cair da noite, fumou o restante do cigarro no banheiro. Às oito em ponto, vestiu seu casaco e saiu. Encontrou seus amigos no posto da esquina. Pouco falava, mas isso não os surpreendia. Daniel era conhecido por seu comportamento errático e raciocínio confuso. Momentos de silêncio geralmente eram intercalados com alguns de grande agitação...

Conto: Incidente no hotel

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INCIDENTE NO HOTEL Era quase meio-dia e, pela vitrine do saguão do hotel, via-se o fluxo intenso de pessoas e automóveis na rua. Prostrado junto ao carrinho de malas, como que não dormisse há vários dias, Rodrigo aguardava uma cliente finalizar os procedimentos de reserva no balcão para que pudessem se deslocar até o quarto. Mais um dia de rotina na vida de Rodrigo, sujeito meio abobado de quase quarenta anos, sem muitas pretensões na vida, e que há bastante tempo trabalhava naquele hotel do centro da cidade. Gostava daquele emprego, não tanto por causa do salário (que era praticamente miserável), mas pela curiosidade doentia que tinha em bisbilhotar a vida alheia. Era quase um "voyeur", que percebia nos outros um refúgio para sua existência atribulada.  Minutos depois, estava no elevador com a hóspede, enquanto sua mente divagava. Como lhe era habitual, fantasiava sobre a vida de cada visitante que chegava no hotel. Não tinha escrúpulos quando imaginava sobre...

O grande acordo e seus inimigos

Após a tempestade pouco amena das eleições de 2018, é de se perguntar qual será o rumo do país daí em diante, para além das narrativas de campanha. Há, no presente, a urgência de se solver o Estado Brasileiro. Durante as eleições, pouco se debateu a respeito, mas impera resolver a questão fiscal e econômica do Brasil. Este caminha para se tornar uma nova Grécia caso nada seja feito, pois a previdência (tanto a do regime geral quanto a dos servidores públicos) é inviável no longo prazo. Não há, também, de onde tirar mais recursos da sociedade, sufocada pelo complexo sistema tributário brasileiro, o que leva a crescentes déficits na esfera pública. Por isso, deve haver um grande acordo nacional. Sem capacidade de diálogo e de transigência, os diversos grupamentos políticos podem arrastar o país para o abismo. No entanto, existem problemáticas que obstam o prosseguimento do acordo. Uma delas é a animosidade que ainda viceja da campanha eleitoral. De um lado, boa parte da populaçã...

Resenha: Buracos Negros

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Buracos negros têm cabelo? O livro “Buracos Negros”, do renomado físico Stephen Hawking, constitui-se da transcrição de duas palestras de quinze minutos, proferidas por ele à BBC em 2016. Trata-se de um apanhado geral sobre este que pode ser considerado um dos mais insólitos e curiosos fenômenos da natureza, provavelmente o que mais atrai a atenção dos leigos em astrofísica. Comentado pelo jornalista de ciência David Shukman, este pequeno texto de 62 páginas percorre o assunto de forma didática, ligeira, sem deixar de lado o tom humorístico, bem típico de Hawking. Em suma, ele demonstra em tais palestras o que são buracos negros de acordo com a ciência, bem como a evolução teórica em torno do tema. Explica que se compreende razoavelmente bem sua formação desde o colapso de estrelas massivas, mas muito se especula sobre as propriedades únicas desses cadáveres estelares. Como se dá a perda de informação quando se formam os buracos negros? Aliás, há perda de informação ou ela é a...

A Queda da Bastilha Brasileira

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O episódio da Queda da Bastilha foi o ícone do desmoronamento do Ancien Régime francês. Simbolizou não só o marco inicial da Revolução Francesa, mas também a sucumbência da monarquia na França e de todo o sistema de servidão medieval no qual se apoiava. A ascensão dos princípios modernos pelos revoltosos pavimentou o caminho para que o Império de Napoleão os levasse aos povos conquistados, fomentando, por fim, o desaparecimento das relações servis em toda a Europa. A Modernidade, portanto, chegava a seu ápice. Contudo, não foi plenamente efetiva. Pelo contrário, os princípios modernos tardaram a chegar em vários locais do mundo. O Brasil é um exemplo. Muitos podem argumentar que a monarquia há muito desapareceu em Pindorama, mas há de se observar que as relações servis, patrimonialistas, perduraram. A cultura brasileira não absorveu bem os valores da liberdade, da ordem secular, do governo popular. Com efeito, há no imaginário nacional um completo disparate: o bem público é s...

A revolta das elites

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O Século XX foi caracterizado pela revolta das massas. Mas, hoje, vivemos a revolta das elites. Parece estranho o que escrevi? Bom, veja por esta perspectiva: por muito tempo, as elites controlaram o mundo, tanto no que diz respeito às riquezas materiais quanto em relação à cultura. A partir de determinado momento, no entanto, a Democracia, o Estado de Direito e o Capitalismo promoveram uma mudança de rumos: agora o povo poderia, teoricamente, controlar a política. Até certo ponto, isto é verdade. Contudo, o sistema nunca foi perfeito e vários se revoltaram contra aquilo que achavam uma farsa. Fizeram de tudo para destruir tal sistema, sobretudo uma pretensa elite intelectual que se dizia parte do povo. Assumiu, com petulância, a tarefa de guiá-lo contra os "opressores", negando o fato de que talvez ela mesma fosse parte do aparato "opressor". Essa narrativa prevaleceu por um bom período da história humana. Massas de indivíduos renunciaram à sua autoco...