Lula como espelho do brasileiro

Por João Eigen


Algo incontestável deve ser dito sobre Luiz Inácio Lula da Silva: ele não é apenas um político normal numa democracia, porque algo em sua pessoa encarna profundamente um aspecto sombrio do brasileiro que nenhum outro político desde 1988 conseguiu recriar.


Luiz Inácio é sui generis, e só Getúlio o supera historicamente como político brasileiro - isso não é mérito moral nenhum. É como se Luiz Inácio fosse um "tipo ideal platônico" ambulante que serve de espelho quando se pensa no lado ruim do Brasil e do brasileiro.


Como explicar que um confesso mentiroso contumaz consiga cinicamente mentir não uma, nem duas, nem três, nem quatro, nem cinco, mas SEIS vezes em eleições e sair vencedor ininterrupto de quatro, numa era cheia de fact-checking, IAs e internet?


Como explicar que o líder do partido mais corrupto da história brasileira não apenas se safe por aí dizendo que "não sabia de nada", mas ativamente promova a candidatura de corruptos condenados como José Dirceu e Delúbio Soares nas ruas do país sem a menor vergonha e desfaçatez?


Como explicar que o presidente que cedeu a nossa soberania nacional na Amazônia para centenas de ONGs internacionais sem o menor escrúpulo, e que ao mesmo tempo que desviava dinheiro do trabalhador brasileiro para ajudar a sustentar ferozes ditaduras narcoterroristas no continente, se safe com a aura do "Lulinha paz e amor" que luta pela soberania?


Como é possível explicar que um líder tenha a coragem de passar pano publicamente para ladrões, traficantes e criminosos, e ativamente resista a quaisquer tentativas de endurecer as penas para crimes num país com altíssimas taxas de violência, e ao mesmo tempo seja visto como um defensor dos trabalhadores e das minorias que mais sofrem nas mãos dos criminosos?


Como é possível explicar que um líder que governou, junto ao seu partido, por quase duas décadas e deixou um país subdesenvolvido, sem indústrias, sem ferrovias, sem capacidade de manufatura e inovação tecnológica relevantes seja, ao mesmo tepo, visto como promovedor do desenvolvimento?


Como é possível que o líder que mais beneficiou a alta elite banqueira e capitalista brasileira, concedendo-lhes ricos empréstimos públicos e altíssimas taxas de juros para uma vida fácil de rentismo às custas do imposto do trabalhador, seja visto como um inimigo dos ricos e poderosos?


Como é possível que político mais dinheirista e gastador contumaz da história brasileira moderna, cujos déficits públicos e esbórnia financeira desmedida são estrondosos, seja visto como alguém preocupado com a sustentabilidade e a longevidade dos serviços sociais como o SUS e o INSS?


Como é possível que o político que mais se gabou de não apenas não ter concluído o ensino médio, mas de não ter tido qualquer interesse em ampliar sua educação formal e de ter mantido as Universidades numa situação financeira difícil e cheia de cortes, seja visto como o promovedor da "Pátria Educadora", com índices educaionais declinantes e vaxaminosos?


Possivelmente nenhuma ciência consiga explicar a contradição sombria que é Luiz Inácio, mas parte da resposta está no fato que o brasileiro "cordial", o brasileiro do "jeitinho", do malandro de temperamento romântico e emocional que infesta os trópicos e esconde sua falta de espírito, coragem e retitude sob a postiça fachada do espertalhão tenha sido inteiramente encarnado na pessoa de Luiz Inácio.


Quando toda essa ruindade do brasileiro se encarna num pesado ponto único, e ele se torna candidato numa frágil democracia de sufrágio universal, o lado bom, respeitável, inteligente e capaz de levantar o país está fadado a seguir a lei da gravidade: para baixo.

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