A banalização do mal (brasileira)
Neste Brasil do Século XXI, percebemos expediente semelhante, que está em processo de enraizamento na sociedade. Por isso, alterei o sufixo para constar “banalização” no título.
Os problemas brasileiros são de conhecimento comum. Economia fraca, falta de oportunidades, colapso fiscal, degradação ambiental, polarização política, educação nula, serviços públicos precários... a lista é imensa. Agora, podemos incluir nessa lata de lixo mais uma complexidade: a banalização do mal.
O brasileiro parou de se importar com o absurdo. Todos os dias absurdos são noticiados, mas ninguém parece se importar. Há um desânimo, como se um moribundo, em seu leito de morte, tivesse aceitado o destino fúnebre. A mera observação do decurso dos anos leva o cidadão médio a pensar dessa forma. Afinal, as coisas não mudam. As dificuldades são as mesmas há décadas, e a maioria parece se contentar com isso. Nesse contexto, a realidade é uma sucessão de fatos sem ordem, em que o valor de cada um se perde no marasmo da indiferença.
Mas essa indiferença não explica tudo. O absurdo se entranhou de tal forma no seio social brasileiro que se tornou mais práxis e menos teoria. Em outras palavras, o absurdo se tornou um lugar-comum, uma prática socialmente aceita.
Já é batido mencionar o jeitinho brasileiro, e outros jargões para explicitar o improviso malicioso praticado por estas bandas. A questão é mais profunda. Para que o indivíduo possa aceitar os fatos como observados hoje, ele precisa ter uma boa dose de perversão moral, e quando muitos indivíduos aceitam tais fatos absurdos como normais, é porque essa perversão moral está difundida irremediavelmente no imaginário popular. E não se engane o leitor, pois esse fenômeno é observável desde o populacho até a elite.
O papo está muito abstrato? Pois finquemos os pés no concreto: a política. Tudo o que vem de Brasília é de um absurdo inominável. O problema é que há muitas pessoas que realmente acreditam que tais absurdos não são absurdos. Um juiz pode rasgar a Constituição todos os dias, jogar pessoas na cadeia por crime de opinião, censurar jornalistas e parlamentares, e até mesmo (pasme!) intervir em favor de esquemas bancários fraudulentos. Mesmo assim, não faltam pessoas que o defendem como grande arauto da democracia; dizem que os ataques contra o nobre juiz são uma forma de “golpe de estado”.
Ontem, fiquei sabendo que esse juiz e seus pares enviaram para o xadrez o engenheiro que concebeu as urnas eletrônicas. Pena: sete anos de prisão em regime inicialmente fechado. Tudo porque o engenheiro produziu um relatório com o fim de apontar vulnerabilidades nas urnas, contratado por elementos que o sistema considera golpistas. Este é mais um dos inúmeros casos escabrosos que povoam aquele tribunal.
Agora, o Congresso. Todos nós sabemos que é uma laia de vagabundos, com raras exceções. Não basta a farra de emendas, as relações pouco republicanas com outros poderes e entidades, os episódios constantes de corrupção. Não. Também introduzem leis cada vez mais esdrúxulas, concebidas por lacaios tanto à direita quanto à esquerda. Exemplo: querem passar um novo crime, o de “misoginia” – interromper uma mulher em público tornar-se-ia hipótese de cadeia. Antigamente, esse tipo de proposta imbecil era uma forma de algum deputado conversar com sua base. Hoje, contudo, a chance de algo assim ser aprovado é grande. Basta ver a proliferação de leis rasas, inconsequentes e perversas criadas nos últimos tempos, sobretudo as de natureza penal, que aprofundaram as divisões na sociedade. Ofensas psicológicas viraram crime, e as relações familiares são decididas na delegacia. A própria interpretação de tais leis pelo judiciário fomenta o abuso, a falsa denúncia e o logro.
Não percamos tempo com Brasília. Vamos mais para baixo. Esses dias, o Ministério Público da Bahia ajuizou uma demanda contra a cantora Cláudia Leite por alterar a letra de uma música de axé, incluindo o nome de Yeshua em lugar de Iemanjá. Noutra ocasião, um juiz de João Pessoa foi denunciado por “racismo religioso” ao negar indenização a uma mãe de santo. Independentemente do mérito dessa controvérsia, temos que atentar ao seguinte: esses casos não são isolados. São sintomas da lenta ocupação das instituições por gente inescrupulosa e pouco democrática. As cátedras do direito compraram sem reservas as ideologias mais porcas do estrangeiro, principalmente essas de origem identitária. Como resultado, aprofundam-se diferenças sociais. Os indivíduos não têm o direito de pensar, senão através da lente da ideologia. Cobra-se uma tolerância obsessiva para com todos os que preenchem os requisitos do “oprimido”. Quem satisfizer tais requisitos, torna-se cidadão mais digno do que os demais, pode tudo. Os outros têm que aceitar suas imposições, sob pena de cadeia.
Isso talvez explique por que o Brasil está entregue ao crime. O crime é muitas vezes visto, por esses ideólogos, como uma forma de revolta contra o sistema, uma forma do pobre oprimido manifestar sua voz. A responsabilidade do criminoso é diluída na responsabilidade da sociedade injusta, esse caldo difuso no qual são jogadas todas as suas culpas. É a psicopatia erigida como pressuposto moral para a ação política. Afinal, o psicopata não se vê responsável por seus atos. É sempre culpa do outro. Esse mesmo princípio é usado, agora, para motivar a transformação social.
Por isso, volto a Hannah Arendt. O que estamos observando é uma transformação radical da sociedade brasileira, uma transformação para pior, posto que traduzida na completa banalização do mal. Há um novo senso comum nascendo. Um senso comum deformado, introjetado por décadas no imaginário coletivo, segundo o qual todos são inimigos em potencial (uns mais do que outros). Se são inimigos, então farei qualquer coisa para impedi-los. Ora, vale tudo para evitar que o inimigo, este que personifica o pior do ser humano, tenha poder sobre mim. Eu quero ter poder sobre ele. O diálogo não é mais possível. A força, sim.
E, com isso, vai para o ralo qualquer resquício de civilização.

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