Supremos intocáveis e chicaneiros
Editorial da Gazeta do Povo
A ala dos ministros que se julgam
intocáveis e desejam permanecer assim veio bastante preparada ao plenário do
Supremo Tribunal Federal nesta terça-feira. O que deveria ser a análise do
pedido de investigação do ministro Alexandre de Moraes por seu relacionamento
de proximidade e confiança com o banqueiro Daniel Vorcaro se tornou um
espetáculo deprimente e vergonhoso, protagonizado especialmente pelos ministros
Gilmar Mendes e Flávio Dino. A dupla fez uma tabela perfeita para tumultuar a
sessão e conseguir encerrá-la sem que houvesse nem sequer uma conclusão sobre
competência e sobre a análise do pedido de investigação de Moraes
simultaneamente a outro pedido: a retaliação de Moraes contra o relator André
Mendonça.
A patética peça de defesa
entregue por Moraes ao presidente do STF, Edson Fachin, na noite de
segunda-feira era uma prévia do que viria nesta terça. O ministro, usando os
costumeiros negritos, exclamações e palavras todas em maiúsculas, agora com o
acréscimo de erros de ortografia e concordância, ressuscitou o discurso do
“golpe”, atribuiu as ações de Mendonça a uma “vingança dos aliados daqueles que
tentaram acabar com a democracia e o Estado de Direito e foram condenados pelo
Supremo Tribunal Federal”, e chegou ao cúmulo de acusar – sem nenhum tipo de
evidência que o apoiasse, claro – uma interferência estrangeira. De concreto,
em sua defesa, Moraes só conseguiu alegar que não existem mensagens de sua
autoria para Vorcaro.
Na manhã da terça-feira, depois
da inesperada declaração de impedimento de Nunes Marques e da esperada
abstenção de Dias Toffoli, começou o lamentável show de horrores. Dino e Gilmar
deixaram explícito que estavam agindo em parceria ao levantar uma questão de
ordem sobre o fato de Fachin ter assumido a relatoria dos dois pedidos de
investigação, e pedindo que ambos fossem julgados juntos. Aqui, fica evidente o
grande erro de Fachin quando deu seguimento à retaliação de Moraes contra
Mendonça, com uma acusação de abuso de autoridade baseada em um relatório
policial apócrifo, sem valor probatório, possivelmente feito por meio de
monitoramento ilegal, e até com traços de preconceito religioso. Quando aceitou
levar adiante o pedido de Moraes, ainda que fora do inquérito das fake news,
Fachin deixou a porta aberta para a estratégia nefasta que os ministros
intocáveis conduziram nesta terça-feira.
O núcleo duro dos intocáveis,
formado por Moraes, Gilmar e Dino, quer igualar ambas as situações: uma relação
de proximidade, atestada por um relatório da PF, entre um ministro e um
investigado que pede até mesmo conselhos sobre saída do Brasil e providências
para frear apurações, e que contrata a peso de ouro o escritório da esposa
desse ministro; e um suposto abuso de autoridade que, no máximo, seria uma
divergência sobre métodos legítimos de condução de inquéritos, embasado em um
documento precário. Como já afirmamos aqui, não há equivalência moral possível
entre ambos os casos – não há nem sequer o mesmo “conjunto fático”, como
alegaram os intocáveis. Mesmo assim, eles aproveitaram muito bem a brecha e
exploraram até o fim a possibilidade de juntá-los.
O objetivo é evidente: criar um
clima de “ou se investigam todos, ou não se investiga ninguém”. Isso ficou
muito claro na fala de Moraes, que, como sempre, não se incomodou com o acúmulo
de papéis e votou na questão de ordem sobre a realização de um julgamento que
poderia fazer dele um investigado. O ministro insistiu na possibilidade de
“decisões conflitantes” caso o plenário votasse por abrir o inquérito contra
ele, mas poupasse Mendonça. Um raciocínio grotescamente falacioso. Afinal,
“decisões conflitantes” envolvem o mesmo assunto – como quando Mendonça afastou
o diretor-geral da PF e Dino lhe restituiu o cargo horas depois, na semana
passada. No entanto, se o plenário entende haver indícios que justifiquem a
investigação de Moraes por seus laços com Vorcaro, mas conclui que não há
razões para investigar Mendonça por abuso de autoridade, não há conflito algum.
Chicanas – como a questão de
ordem e os discursos intermináveis – e falácias, no entanto, não encerram a
deprimente sessão desta terça-feira. Os intocáveis ainda criaram confusão
sempre que tiveram a chance. “A vida para Vossa Excelência é ofender as pessoas
(...) Um temperamento agressivo, grosseiro, rude”, disse, em 2018, o então
ministro Luís Roberto Barroso a Gilmar Mendes em um bate-boca que entrou para a
história da corte. E o decano mostrou mais uma vez que o agora aposentado
Barroso estava coberto de razão. Embora Dino e Moraes também tenham apelado,
discutindo com Fachin, Luiz Fux e Mendonça (que, ao menos, não ficaram calados
e se defenderam), Gilmar provocou e insultou em todas as oportunidades
possíveis, interrompendo os colegas – especialmente Mendonça – e portando-se
como dono da corte, ignorando as tentativas de Fachin de restabelecer a ordem.
“Uma desonra para o tribunal”, para recordar mais uma vez as palavras de
Barroso a Gilmar, um homem completamente indigno do cargo que ocupa.
No fim, Dino retirou seu próprio
voto favorável à questão de ordem para pedir vista e bloquear a conclusão da
análise com um empate – Cristiano Zanin votou junto com os intocáveis, e Cármen
Lúcia acompanhou Fachin, Mendonça e Fux pela rejeição da proposta de Gilmar. Os
chicaneiros impediram temporariamente que um dos seus seja investigado, apesar
do caminhão de indícios que pesam contra ele. Que ao menos um bem tenha
emergido do horror visto nesta terça-feira: que os brasileiros tenham percebido
a importância de eleger senadores dispostos a remover do STF todos os ministros
que não têm a menor condição de seguir na corte – pois Moraes não é o único, e
a lista continua a crescer.
Comentários
Postar um comentário