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Bomba no STF: está na hora de todos pararem de dar pretextos a malucos

Por Mário Sabino Se não houver ninguém por trás do homem que se explodiu em frente ao STF, na noite de ontem, a coisa ficará mesmo só por conta da loucura, assim como a facada que Adélio Bispo de Oliveira deu em Jair Bolsonaro, em Juiz de Fora, em 2018. Francisco Wanderley Luiz, o Tio França, foi candidato a vereador pelo PL, em 2020, na cidade de Rio do Sul, em Santa Catarina. Adélio, por sua vez, foi filiado ao PSol de 2007 a 2014, em Uberaba, Minas Gerais. Direita e esquerda estão empatados. A se confirmar a solidão do homem-bomba, estará errado dizer que houve motivação política para ele cometer o seu desvario. O correto será dizer que a política foi o elemento desencadeador do ato de loucura. O anticomunista Tio França era até partidário da terceira via, veja você. Em uma das suas mensagens, ele escreveu: “Bolsonaro e Lula, se vocês amam o Brasil, afastem-se da vida pública! Chega de polarização, este é o momento de vocês provarem quem vocês são. O povo é um só povo.” Há uma difer...

Democracia doente

A Constituição de 1988 conferiu aos cidadãos uma ampla gama de direitos fundamentais, mas o constituinte não se preocupou com a modelagem do sistema político. O que temos é um sistema pouco representativo (voto proporcional em lista aberta). O cidadão não sabe em quem está votando, a minoria dos parlamentares foi eleita pelo voto direto. Em consequência, impera o clientelismo e a pressão de grupos de interesse pouco empenhados no bem-estar do país. Há também uma falta de freios e contrapesos aos poderes da república. O judiciário não tem controle algum, faz os próprios orçamentos e os seus integrantes só podem ser julgados por seus pares, praticamente. A alta cúpula, então, comporta-se como se estivesse acima das leis e da constituição. O executivo é repleto de poderes orçamentários e de iniciativa legislativa, mas sua atuação está engessada por uma infinidade de regras constitucionais. Não há margem de manobra para lidar com os conflitos políticos e para adequar as demandas orçamentár...

Trump e a Rússia

Por Rodrigo da Silva Muita gente me pergunta se o governo Trump entregará a Ucrânia de bandeja para Vladimir Putin. Passei muito tempo da minha vida pesquisando sobre a relação de Trump com a Rússia – o que inclui escrever um livro a respeito que já me consumiu, até aqui, mais de um ano de trabalho, 500 páginas e mais de 1.600 fontes anexadas. Não faço a menor ideia de quantas horas já dediquei a esse assunto. Se é humanamente impossível ler tudo o que já foi produzido a respeito desse tema, certamente consumi boa parte do que há de mais relevante sobre ele – livros, relatórios de inteligência, documentos oficiais, depoimentos de ex-assessores e ex-secretários, reportagens, documentários, papers, gravações. Tendo acessado tudo isso, o que posso dizer sobre a possibilidade de Trump entregar a Ucrânia de bandeja para Putin é um imenso: “talvez”. Não tenho qualquer dúvida razoável que a Rússia enxerga Trump como um asset e que há quase 40 anos – desde que ele visitou a União Sovié...

A tragédia do novo arcabouço fiscal

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  Imagens que valem por mil palavras. Esse é um gráfico que representa o resultado contábil das contas públicas do governo federal, em função de % do PIB. Legenda: Em amarelo pontilhado: o prometido. Em vermelho pontilhado: o revisado.  Em azul pontilhado: expectativa do mercado.  Linha azul escura: A REALIDADE.  Qual é a chance de entregar?

O fim de toda esperança

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  O FIM DE TODA ESPERANÇA Era uma visão estonteante aquela do Distrito Alto: do topo das colinas repletas de casarões modernos e varandas inacessíveis, podia-se vislumbrar o espetáculo da aurora em Mhajulla. Na região central, logo abaixo, os pináculos dos arranha-céus formavam as cristas de uma coroa gigantesca quando refletiam a luz da alvorada. Aquelas torres imensas e platinadas, verdadeiras flâmulas do amanhecer, jaziam como colunas brancas que pareciam sustentar a abóbada celeste. Um contraste assombroso com o interior da decrépita mansão em que Dante estava. Cuidando para não pisar nos cacos de vidro e restos de comida, o jovem magnata cruzava o quarto, na ponta dos pés, com uma pequena maleta: só levaria o essencial. Teve um último vislumbre da sacada e da visão primorosa à frente. Sentiria falta disso e nada mais. Os porres homéricos, as festas bizarras, as comidas exóticas, os bailes de máscaras reais e fictícios da elite: aquilo tudo foi enterrado dentro do seu ser. Em u...

Negacionismo de esquerda

Por J. R. Guzzo A derrota arrasadora que a esquerda americana, brasileira e mundial acaba de sofrer na eleição presidencial nos Estados Unidos só pode ser comparada às análises dos seus pensadores sobre a torrefação da Grande Esperança Negra que inventaram para perder. Não conseguiram, até agora, deixar de pé um único pensamento coerente sobre o naufrágio. Estão em estado de choque, e tudo o que têm a apresentar é uma maçaroca de exclamações desesperadas, irracionais e sobretudo cegas. Não há obviamente como comentar uma derrota desse tamanho sem examinar o que há de errado na conduta de quem perdeu. A esquerda resolveu jogar a culpa nos vencedores. Ninguém está vendo o que anos seguidos da estratégia única de tratar Donald Trump como um demônio, em vez de um oponente político, produziram na vida real. Não parece ser nenhum fenômeno sobrenatural. O eleitor americano ficou exausto de ouvir coisas em que não acredita, basicamente por não fazerem nexo – e reagiu devolvendo a Presidê...

Os democratas não entendem o que é ser latino

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  Por Rodrigo da Silva Não tenho o hábito de comentar sobre minha vida pessoal neste espaço, mas hoje vou abrir uma exceção. Eu não moro no Brasil. Por conta disso, há algum tempo, adicionei à minha identidade uma nova condição – a de um imigrante. Mais do que isso: a de um imigrante latino-americano. Até então, eu acreditava nunca ter renegado minha latinidade. Fui criado num lar onde Márquez, Llosa, Borges e Cortázar disputavam a tapa o espaço na estante. Cresci ouvindo Buena Vista Social Club, Omara Portuondo, Tito Puente e Juan Luis Guerra. Mas enquanto brasileiro, sempre estive preso num paradoxo: ter nascido no maior país da América Latina e não ser reconhecido como um latino-americano. Não sou o único a conviver com essa incoerência. A nossa relação com os nossos vizinhos é, no máximo, cordial. O Brasil é o único lugar da América em que a língua oficial é o português. Mas ao mesmo tempo em que estamos cercados de falantes de espanhol, não convivemos com eles. Um sujeito ...