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Tolkien usurpado

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John Ronald Reuel Tolkien, J. R. R. Tolkien ou simplesmente Tolkien, foi o filólogo e romancista inglês responsável pela criação do épico de fantasia mais influente de todos os tempos, O Senhor dos Anéis . Uma obra rica e impressionante, foi pensada a partir de várias influências sociais, religiosas, místicas e linguísticas, tornando-se não só um marco da literatura de alta fantasia, mas também um ícone da cultura de massa da segunda metade do Século XX.  Após a morte de Tolkien, em 1973, os direitos autorais da obra foram reunidos sob seu espólio, cuja administração incumbia a Christopher John Reuel Tolkien, terceiro filho do falecido escritor. Ferrenho advogado da memória de seu pai, Christopher editou vários livros póstumos, com estórias inéditas e compilações de alguns de seus rascunhos sobre o mundo de Arda, os quais não haviam sido publicados durante a vida do autor.  Sua obstinação em manter a integridade da obra era notória, de modo que conseguiu afastar por décad...

Triste fim do jornalismo

Irmãos assumem incesto, e a mídia acha “controverso” Por Luciano Trigo 05/09/2022 09:36 Desde o início da civilização, a proibição de relações sexuais entre membros consanguíneos da mesma família é, com pequenas variações, um elemento comum a todas as formações sociais e culturais humanas. Freud dedicou um longo ensaio ao tema, “O horror do incesto”, incluído no livro “Totem e Tabu” (1913), no qual examina a vigência milenar dessa norma já entre os aborígenes australianos e diferentes sociedades primitivas das ilhas do Pacífico e do continente africano. Freud voltaria a abordar o assunto em outro ensaio, “As origens da família e do clã”, de 1922, desta vez investigando o tabu do incesto como necessário mecanismo de prevenção dos efeitos biológicos nocivos das relações íntimas entre parentes. Para Freud, a interdição do incesto – como, aliás, a proibição do parricídio – é um marco fundador da cultura, algo que está na própria raiz da civilização. O título do seu ensaio já traduz a reaçã...

O Emoji Golpista

Por: Fernando Schuler Emoji é uma daquelas figurinhas de WhatsApp e mídias eletrônicas. Por vezes usamos um como o polegar levantado, dizendo “o.k.”, outras vezes aquelas palminhas, podendo seu significado variar. Lembro de uma história que escutei sobre Einstein, no seu período em Princeton, já uma celebridade mundial. As pessoas o paravam no câmpus da universidade e ele tinha o hábito de concordar com tudo o que elas diziam. Perguntado sobre por que ele fazia isso, explicou: “Para elas irem embora logo”, e abriu um largo sorriso. Nunca soube se a história era verdadeira. Mas era boa. No Brasil de hoje tudo isso ficou tremendamente sinistro. Você pode fazer como Einstein e concordar com uma frase “perigosa”, em uma conversa no WhatsApp. Seu amigo pode escrever que adoraria viver em uma ditadura, e você colocar lá uma emoji com o polegar levantado. E, a partir disso, ser objeto de uma extensa ação repressiva do Estado brasileiro. Sigilo bancário quebrado, contas bloqueadas, banimento d...

O Leviatã bisbilhoteiro

Por Fernando Schüler, artigo para a Revista Veja. “Golpe foi soltar o presidiário!”, diz um dos membros do agora famoso grupo dos “golpistas do Whats­App”. Outro integrante mira no STF: “A Corte age à revelia da Constituição!”, diz e conclui: “Até quando vamos assistir o abuso prevalecer?”. A frase mais grave veio na forma de um desejo: “Prefiro um golpe à volta do PT”. Ele parece falar de variações do modelo chinês, que junta autoritarismo com mercado, e engata: “Ninguém vai deixar de fazer negócios com a gente”. Por fim, alguém arrisca uma digressão whats-filosófica, dizendo que “a espécie humana sempre foi violenta”, e que seria “uma utopia pensar que as coisas sempre se resolvem ‘na boa’”. É o Brasil em transe. Não por essas frases desconexas, algumas com o lamentável traço autoritário, aliás, ditas aos milhares no universo cacofônico das redes, dos bares, dos clubes, nos jogos de beach tennis Brasil afora. O transe é estarmos em meio a uma campanha presidencial discutindo essas c...

Fundo do poço

As declarações de uma fugitiva do regime ditatorial norte-coreano sobre sua experiência universitária nos EUA mostram bem o ovo da serpente que se tornou o ambiente acadêmico americano. Em entrevista reveladora à Fox News, Yeonmi Park disse que a sociedade americana perdeu o bom senso “a um ponto em que eu, como norte-coreana, não consigo compreender.” “Eu esperava gastar toda essa fortuna, todo esse tempo e energia para aprender a pensar. Mas eles estão forçando você a pensar da maneira que eles querem que você pense”, disse Park, descrevendo a situação como loucura. “Achei que a América fosse diferente, mas vi tantas semelhanças com o que vi na Coreia do Norte que comecei a me preocupar.” Durante a entrevista, Parks contou que foi repreendida por uma orientadora da universidade simplesmente por dizer que gostava de literatura clássica. “Achei que era uma coisa boa. Mas ela me disse ‘você sabe que estes escritores tem uma mentalidade colonial? Eles eram racistas e intolerantes e estã...

O Supremo quer ser o Grande Irmão

Editorial da Gazeta do Povo, 23 de agosto de 2022. Quando opiniões políticas emitidas em caráter privado se tornam motivo para mandados de busca e apreensão, e aqueles que as emitiram precisam comparecer diante da Polícia Federal, podemos muito bem dizer que já não estamos apenas diante de um “editor da sociedade”, nem de um “poder moderador” – expressões efetivamente usadas por membros do Supremo Tribunal Federal para descrever a própria corte –, mas do próprio Grande Irmão orwelliano, que pune até mesmo pensamentos considerados inconvenientes, no que o autor de 1984 chamou de “crimideia”. A operação policial contra oito empresários deflagrada na manhã desta terça-feira é um abuso sem precedentes na história recente brasileira – e, se usamos o termo “sem precedentes” no país dos inquéritos teratológicos que já renderam censura à imprensa e violação da imunidade parlamentar, é porque novos limites foram ultrapassados. Em 17 de agosto, o site Metrópoles publicou reportagem afirmando ter...

Carta pela democracia

Por que não assino o Manifesto da USP? Porque, apesar de sério e bem intencionado, faz elogios ao Supremo Tribunal Federal, que, com todo o respeito, a meu juízo, não os merece na atualidade. A Praça dos Três Poderes, em Brasília, tornou-se fábrica de crises e retrocessos institucionais semanalmente. Executivo, em maior escala, Legislativo e Judiciário, todos partícipes de tal atividade manufatureira prejudicial do Estado Democrático de Direito. Na verdade, estão às rusgas, demonstrando desconhecer o que seja Estado Democrático de Direito, em desarmonia institucional profunda e afronta às normas do art. 2º da Constituição da República. Falta leitura do livro de Montesquieu, De l'Esprit des Lois, um monumental Tratado de Ciência Política.  Ronaldo Brêtas