Alexandre de Moraes, o Apolônio de Tiana do Estado Democrático de Direito
Por Flávio Gordon
“Eles me odiaram sem razão” (Salmos 35,19)
O escritor Ruy Castro virou o ano com um travo amargo na
boca. Sua primeira coluna de 2026, publicada na Folha de S. Paulo, chama a
atenção menos por aquilo que diz expressamente do que pelo que revela
involuntariamente sobre o clima espiritual do Brasil, um país sob feitiço. Jair
Bolsonaro está preso, politicamente derrotado, fisicamente debilitado,
submetido a sucessivas cirurgias – e, ainda assim, o ódio não arrefece. Não há
compaixão, nem mesmo a curiosidade humana diante da fragilidade. Há apenas a
exigência de que a vítima continue sendo vítima. Esse ódio que sobrevive à
derrota, à doença e à neutralização do adversário é sempre um sintoma. Ele
indica que não estamos diante de um conflito político comum, mas de algo mais
antigo e mais profundo: a persistência de um ritual sacrificial.
Sim, Ruy Castro é um enfeitiçado. E aqui precisamos recorrer
a René Girard. Segundo o antropólogo francês, quando sociedades entram em
estado de tensão prolongada – conflitos, rivalidades, frustrações acumuladas,
ou aquilo que hoje se chamaria de “polarização” –, elas tendem a buscar
reconciliação não pela verdade, mas pela convergência violenta contra uma
vítima comum, responsável por expiar o mal coletivo. Como escreve Girard, “após
um período de mal-estar e conflitos, acontece frequentemente que elas se reconciliem
à custa de uma vítima”, cuja inocência é evidente para qualquer observador
externo, mas invisível ao grupo perseguidor. A violência torna-se contagiosa,
mimética, ritualizada. A crença na culpa da vítima passa a ser condição de
equilíbrio psíquico coletivo.
Girard leva essa intuição ao limite ao comparar duas figuras
que muitos pensadores modernos insistiram em aproximar: Jesus de Nazaré e
Apolônio de Tiana, místico pagão do século II. Ambos operam em contextos de
crise; ambos lidam com multidões à beira da violência; ambos realizam aquilo
que seus contemporâneos chamam de “milagres”. Mas o sentido de suas ações é
radicalmente oposto. Ali onde o cristianismo revela e desarma o mecanismo do
bode expiatório, o paganismo sacraliza-o e executa-o.
O episódio narrado por Flávio Filóstrato em _Vida de
Apolônio de Tiana_ é exemplar. A cidade de Éfeso está devastada por uma
epidemia de peste. Incapazes de se livrar do mal, os efésios recorrem
desesperadamente ao célebre taumaturgo. Apolônio percorre a cidade, promete
cura imediata e convoca toda a população ao anfiteatro. Ali, surge um mendigo
em farrapos, repulsivo, piscando os olhos como se fosse cego, trazendo consigo
uma côdea de pão bolorenta. Sua simples presença provoca nojo. É o corpo
perfeito para receber a projeção do pânico coletivo.
Apolônio então profere a frase decisiva: “Apanhem tantas
pedras quanto possam e atirem-nas nesse inimigo dos deuses.” A população
hesita. Apedrejar um miserável indefeso parece excessivo até para uma cidade em
desespero. Aqui está o ponto crucial identificado por Girard: a dificuldade da
primeira pedra. Ela é a mais pesada porque não tem modelo; concentra toda a
responsabilidade moral do gesto.
Consciente disso, Apolônio insiste obstinadamente. Alguns
homens lançam timidamente uma ou outra pedra. Então, segundo Filóstrato, o
mendigo lança um olhar “cheio de fogo”. A multidão compreende – ou acredita
compreender – que se trata de um demônio. A partir daí, o apedrejamento
torna-se frenético. As pedras se acumulam até formar um túmulo. A vítima é
esmagada. Mais tarde, ao retirarem as pedras, os efésios “descobrem” que não
era um mendigo, mas uma besta monstruosa, semelhante a um cão molosso do tamanho
de um leão. A peste cessa. O linchamento funcionou. Ergue-se uma estátua de
Héracles no local.
Girard batiza o acontecimento de um “horrível milagre”. O
milagre não é a cura, mas a ativação bem-sucedida do mecanismo do bode
expiatório. A coletividade homicida não podia estar errada. A vítima tinha de
ser culpada. Num processo catártico, quanto mais os efésios obedecem ao
acusador, mais se convertem numa multidão histérica, descarregando sobre a
vítima uma torrente de medos, ódios e frustrações acumulados – e, ao final,
descobrem-se curados.
É impossível não reconhecer, nesse roteiro, a lógica
profunda da perseguição contemporânea a Jair Bolsonaro. A primeira coluna do
ano de Ruy Castro foi escrita como que sob transe hipnótico, por um efésio que,
por influência do taumaturgo, já não distingue justiça de sacrifício.
Alexandre de Moraes ocupa hoje o lugar simbólico de Apolônio
de Tiana no imaginário do chamado Estado Democrático de Direito. Ele é o
curandeiro togado convocado para salvar a cidade de uma peste difusa – a
“ameaça antidemocrática”. Bolsonaro é apontado como o demônio dessa peste, a
causa invisível de todos os males: polarização, instabilidade institucional,
descrédito das instituições, ressentimento social. Pouco importa a precisão das
acusações. O essencial não é a verdade, mas a eficácia simbólica da vítima.
Como em Éfeso, houve hesitação inicial. Ali por volta de
2019, ainda subsistia certo escrúpulo jurídico e alguma resistência moral (como
a da então Procuradora Geral da República Raquel Dodge, que alertou para o fato
de o STF estar em vias de se tornar um “tribunal de exceção”). Mas o acusador
insistiu e a histeria ritual foi se disseminando. Cada decisão excepcional,
cada inquérito sem fim, cada suspensão de direitos funcionou como uma pequena
pedra lançada. Uma gera a outra. Como escreve Girard: “À medida que os modelos
se multiplicam, o ritmo do apedrejamento acelera.”
O segredo do processo está em desviar o foco da violência
para a suposta monstruosidade da vítima. Não se discute a brutalidade do
apedrejamento; discute-se a necessidade de eliminar o demônio. Não se fala da
crueldade institucional; fala-se da salvação da democracia. A responsabilidade
moral pela violência estatal é dissolvida na unanimidade acusatória. Todos
participam. Logo, ninguém é responsável.
É aqui que a persistência do ódio, mesmo quando a vítima já
está derrotada, doente e neutralizada, se torna reveladora. O bode expiatório
não pode simplesmente cair; ele precisa continuar caindo. A compaixão seria
perigosa, porque poderia quebrar o feitiço. A piedade faria reaparecer a
pergunta proibida: e se ele não for culpado?
Por contraste, Girard recorda a cena bíblica da mulher
adúltera. Ali, a multidão já está inflamada, pronta para matar. Jesus, ao
mencionar explicitamente a primeira pedra –“Aquele que nunca pecou que atire a
primeira pedra” – faz recair sobre cada indivíduo o peso da responsabilidade
moral. As pedras caem das mãos. O linchamento é abortado. Cristo não nega o
pecado; Ele desarma a violência mimética.
O que se desenrola no Brasil de hoje é mais do que uma
disputa jurídica ou política; é uma guerra cultural e espiritual entre dois
modelos inconciliáveis de justiça. De um lado, a justiça cristã, que interrompe
o ciclo da violência ao expor a responsabilidade do acusador e recusar o
sacrifício do inocente. É essa intuição, ainda que difusa, que anima fenômenos
religiosos populares como o de Frei Gilson e a reação espontânea de milhões de
fiéis. De outro lado, há a justiça arcaica, sacrificial, que restaura a ordem
pela eliminação ritual de uma vítima. Alexandre de Moraes se move
declaradamente neste segundo horizonte simbólico.
Na famigerada entrevista à revista americana New Yorker, ao
ser questionado sobre suas referências espirituais, afirmou inspirar-se em
Xangô e Exu – entidades afro-brasileiras associadas, respectivamente, aos
princípios da lei e da ordem. “Espere”, reagiu a entrevistadora, surpresa,
“Xangô não é um deus da guerra?”. Moraes apenas sorriu e a conduziu até a porta.
O gesto, mais do que a resposta, é revelador: por mais
ridículo que isso seja, o sujeito não se vê como juiz, mas como “guerreiro”.
Sua concepção de justiça não busca reconciliar. Para ele, o réu não é réu, mas
uma vítima expiatória a ser oferecida em sacrifício pela “pacificação” ritual
da cidade. "Convém que morra um só homem pelo povo, e que não pereça toda
a nação" – como diria Caifás, ecoando a fórmula sacrificial clássica (João
11:50).
A tragédia, como sempre em Girard, é que o sacrifício nunca
resolve nada de forma definitiva. A paz obtida pela eliminação do bode
expiatório é provisória. Logo surgirá outra crise, outra vítima, outro
linchamento. Mas enquanto durar o transe, enquanto a cidade acreditar que o
demônio foi expulso, Apolônio será celebrado. Eis por que, a cada nova ocasião
em que o taumaturgo se veja exposto em sua natureza prestidigitadora, ele
precise recontar incessantemente a mitologia de origem da crise.
O cristianismo revelou esse mecanismo para torná-lo
moralmente insustentável. O drama do Brasil é ter rejeitado essa revelação sem
abandonar o mito. Perdemos o freio cristão e retornamos, com linguagem jurídica
e retórica democrática, ao mais antigo dos rituais humanos: o linchamento do
bode expiatório em nome da salvação coletiva. Alexandre de Moraes é o
sumo-sacerdote desse quebranto brasileiro. E Jair Bolsonaro, goste-se ou não
dele, é o mendigo de Éfeso sob as pedras – não porque seja culpado, mas porque,
para uma sociedade em crise, alguém precisa sê-lo.
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