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Os democratas não entendem o que é ser latino

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  Por Rodrigo da Silva Não tenho o hábito de comentar sobre minha vida pessoal neste espaço, mas hoje vou abrir uma exceção. Eu não moro no Brasil. Por conta disso, há algum tempo, adicionei à minha identidade uma nova condição – a de um imigrante. Mais do que isso: a de um imigrante latino-americano. Até então, eu acreditava nunca ter renegado minha latinidade. Fui criado num lar onde Márquez, Llosa, Borges e Cortázar disputavam a tapa o espaço na estante. Cresci ouvindo Buena Vista Social Club, Omara Portuondo, Tito Puente e Juan Luis Guerra. Mas enquanto brasileiro, sempre estive preso num paradoxo: ter nascido no maior país da América Latina e não ser reconhecido como um latino-americano. Não sou o único a conviver com essa incoerência. A nossa relação com os nossos vizinhos é, no máximo, cordial. O Brasil é o único lugar da América em que a língua oficial é o português. Mas ao mesmo tempo em que estamos cercados de falantes de espanhol, não convivemos com eles. Um sujeito ...

Vitória de Trump põe Lula, professores da USP e banqueiros de ‘pegada social’ em ansiedade extrema

Por J R Guzzo O Brasil tem acumulado angústias, ao longo de toda a disputa eleitoral pela presidência dos Estados Unidos, diante dos riscos de que o “fascismo” volte à face da Terra. Na verdade, não é o Brasil que está preocupado com o assunto. A população brasileira tem mais bom senso que toda a sua elite somada, e sabe perfeitamente, ou intui, que não existe uma única coisa de verdade na sua vida que possa ser ameaçada pelo “fascismo”. Sabe os perigos reais do seu dia a dia, que vão de uma droga de salário até o revólver que o ladrão aponta para a sua cabeça – e tem certeza de que a extrema direita não é um deles. Quem fica falando dia e noite disso são Lula, os professores da USP e os banqueiros com “pegada social” – e quem mais se inclui no seu mundo. Devem estar com a ansiedade em modo extremo, desde ontem, com a vitória de Donald Trump para a presidência americana. Segundo disse às vésperas eleição o presidente brasileiro, Trump vai trazer de volta para os Estados Unidos e o mund...

Lugar de fala é lugar de cale-se

O identitarismo perde feio em eleições, mas continua soberano nas universidades Por Wilson Gomes Quando escrevi esta coluna, eu ainda não sabia o resultado da eleição presidencial americana, mas você, caro leitor, provavelmente já sabe. Independentemente de quem venceu essa disputa, que pode influenciar decisivamente a eleição brasileira em dois anos, há questões que já estão claras para quem acompanha as cada vez mais frequentes competições em que a extrema direita se apresenta com grandes chances de vitória. A mais evidente delas, que afeta tanto as retóricas eleitorais quanto as perspectivas de políticas públicas e mudanças legislativas futuras, é a crise de popularidade da ideologia identitária. Para quem acompanhou a campanha americana, saltam aos olhos tanto o recuo na retórica identitária de Kamala Harris quanto o avanço, agora sem filtros, da agenda anti-identitária de Donald Trump . Como tudo ali é baseado em dados e cálculos eleitorais, o afastamento de Harris dessa retórica ...

Enlace Mortal

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  ENLACE MORTAL “ Qualquer ferida, menos a do coração; qualquer malícia, menos a da mulher .” (Eclesiástico 25, 13) O monarca das trevas Era um rei. O rei da baixa floresta. Tinha de tudo: uma grande casa, comida farta e criados que o serviam. Até que veio a ruína, sorrateira feito ferrugem que corrói o aço sem alarde. Como todos de sua espécie, tinha vários pares: quatro de longas pernas, quatro de olhos e um de presas avantajadas. Em suma, era uma grande aranha negra. Temível em seu meio, um predador nato. Ninguém se atrevia a passar por sua toca: a mera visão de seu trono era suficiente para afastar os mais valentes, como o louva-a-deus e o escorpião; até mesmo pequenos ratos e répteis receavam as catacumbas do rei das trevas. Mas ele não se limitava à sua mansão subterrânea: criara teias que subiam até os céus, e os pequenos mosquitos que se aventuravam em direção à luz eram capturados, retorcendo-se em agonia até perderem as forças. Estocados na hedionda despensa do rei, esper...

A Suprema Inquisição de Flávio Dino

Por André Marsiglia  Por decisão monocrática, o ministro Flávio Dino mandou, na 6ª feira (1º.nov.2024), serem excluídos de livros trechos que continham potenciais ofensas contra minorias LGBTQIA+. O que Dino não sabe é que livros não ofendem porque não existe debate ofensivo, ofensivo é não haver debate. Se os trechos contêm burrice intelectual, muito mais burra é a sociedade que os manda excluir. E como antídoto a esse tipo de censura, tenho 2 argumentos: um filosófico e outro jurídico. O argumento filosófico: acreditar que a inexistência de livros resultará na inexistência de ideias indigestas é um pensamento mágico e infantil. Acreditar que essas ideias colocam em risco os valores reais de uma nação é digno de uma sociedade fraca, frouxa e medrosa. Ou de uma nação sem valores reais. E temos vivido essa democracia covarde no Brasil, desde que o STF se tornou síndico do debate público, com os inquéritos das fake news. Pelo medo de a democracia ser ameaçada, não permitimos seu que...

As Masmorras de Caladhar

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  AS MASMORRAS DE CALADHAR Kael tentava acompanhar a destreza de Brognar em meio à densa vegetação. Apesar de ter sido criado nos palácios, o príncipe não era apalermado, mas simplesmente não tinha o treinamento de um guarda real. Este seguia por entre os arbustos e cipós, golpeando-os imperturbável com o pesado facão, mesmo quando a penumbra caía sobre eles como uma mortalha sinistra. – Por favor, vamos descansar um pouco! – Sugeriu o nobre, agastado. – Cale-se! Quer atrair atenção?! – Brognar rebateu rispidamente, ignorando o pedido. Kael não estava acostumado com aquele tratamento; porém, respeitava o guia, que o salvara do infortúnio. Era o guarda preferido de seu pai: um leão entocado pronto para defendê-lo de qualquer perigo – e morrer se fosse preciso. O rapaz então continuou a caminhada cabisbaixo, sem que respondesse, escondendo suas queixas infantis. A terra ali era uma massa grudenta de sedimentos, que se agarrava às suas sapatilhas como piche. Cada passo parecia um merg...