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Leitura

Por Gustavo Bertoche Por alguns anos ensinei a disciplina “Metodologia da Pesquisa” numa universidade. A primeira lição nas minhas aulas de Metodologia sempre foi: aprender a ler. Isso pode parecer infantil, mas conheço pessoas com mestrado e doutorado que lêem muito mal. Há diferentes técnicas de leitura de um texto dissertativo: a leitura skimming, perpendicular, rápida, em que somente se apreende o objeto geral do texto; a leitura tipo scanning, também rápida, em que não se entende nada do texto, mas se busca, com atenção, termos ou expressões-chave; a leitura de compreensão, em que se busca efetivamente apreender a tese e os argumentos do texto; a leitura analítica, em que se busca obter as referências do autor e os seus passos lógicos; e a leitura crítica, em que se procura pelas falhas argumentativas, contradições, erros conceituais, equívocos nas referências a outros autores. * * * De fato, há algumas regras básicas para a compreensão de um texto argumentativo - seja um livro, u...

QI, educação e literatura

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 Por Gustavo Bertoche O QI médio em praticamente todos os países do mundo cresceu muito nos últimos 100 anos. Na Alemanha e nos EUA, o crescimento do QI médio foi de mais de 30 pontos. No Quênia e na Argentina, foi de cerca de 25 pontos. Na Estônia e no Sudão, foi cerca de 12 pontos. Fonte: https://ourworldindata.org/.../change-in-average... No Brasil aconteceu justamente o contrário. A queda do QI foi de quase 10 pontos nos últimos 100 anos. Talvez esse emburrecimento generalizado seja único na história da humanidade. O nosso QI médio é de 87, o que nos coloca, na média, no limite da deficiência intelectual. * * * Esse fenômeno bizarro tem tudo a ver com o nosso modelo de (des)educação escolar. Nada a ver com Paulo Freire, amigos. A coisa vem de muito antes. Em 1915, Lima Barreto revelava a cultura das aparências no Brasil: ao saber que Policarpo Quaresma possuía uma biblioteca particular, o doutor Segadas pergunta para que tantos livros, se não era nem formado. Não lhe ocorre que...

Tolkien usurpado

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John Ronald Reuel Tolkien, J. R. R. Tolkien ou simplesmente Tolkien, foi o filólogo e romancista inglês responsável pela criação do épico de fantasia mais influente de todos os tempos, O Senhor dos Anéis . Uma obra rica e impressionante, foi pensada a partir de várias influências sociais, religiosas, místicas e linguísticas, tornando-se não só um marco da literatura de alta fantasia, mas também um ícone da cultura de massa da segunda metade do Século XX.  Após a morte de Tolkien, em 1973, os direitos autorais da obra foram reunidos sob seu espólio, cuja administração incumbia a Christopher John Reuel Tolkien, terceiro filho do falecido escritor. Ferrenho advogado da memória de seu pai, Christopher editou vários livros póstumos, com estórias inéditas e compilações de alguns de seus rascunhos sobre o mundo de Arda, os quais não haviam sido publicados durante a vida do autor.  Sua obstinação em manter a integridade da obra era notória, de modo que conseguiu afastar por décad...

Triste fim do jornalismo

Irmãos assumem incesto, e a mídia acha “controverso” Por Luciano Trigo 05/09/2022 09:36 Desde o início da civilização, a proibição de relações sexuais entre membros consanguíneos da mesma família é, com pequenas variações, um elemento comum a todas as formações sociais e culturais humanas. Freud dedicou um longo ensaio ao tema, “O horror do incesto”, incluído no livro “Totem e Tabu” (1913), no qual examina a vigência milenar dessa norma já entre os aborígenes australianos e diferentes sociedades primitivas das ilhas do Pacífico e do continente africano. Freud voltaria a abordar o assunto em outro ensaio, “As origens da família e do clã”, de 1922, desta vez investigando o tabu do incesto como necessário mecanismo de prevenção dos efeitos biológicos nocivos das relações íntimas entre parentes. Para Freud, a interdição do incesto – como, aliás, a proibição do parricídio – é um marco fundador da cultura, algo que está na própria raiz da civilização. O título do seu ensaio já traduz a reaçã...

O Emoji Golpista

Por: Fernando Schuler Emoji é uma daquelas figurinhas de WhatsApp e mídias eletrônicas. Por vezes usamos um como o polegar levantado, dizendo “o.k.”, outras vezes aquelas palminhas, podendo seu significado variar. Lembro de uma história que escutei sobre Einstein, no seu período em Princeton, já uma celebridade mundial. As pessoas o paravam no câmpus da universidade e ele tinha o hábito de concordar com tudo o que elas diziam. Perguntado sobre por que ele fazia isso, explicou: “Para elas irem embora logo”, e abriu um largo sorriso. Nunca soube se a história era verdadeira. Mas era boa. No Brasil de hoje tudo isso ficou tremendamente sinistro. Você pode fazer como Einstein e concordar com uma frase “perigosa”, em uma conversa no WhatsApp. Seu amigo pode escrever que adoraria viver em uma ditadura, e você colocar lá uma emoji com o polegar levantado. E, a partir disso, ser objeto de uma extensa ação repressiva do Estado brasileiro. Sigilo bancário quebrado, contas bloqueadas, banimento d...

O Leviatã bisbilhoteiro

Por Fernando Schüler, artigo para a Revista Veja. “Golpe foi soltar o presidiário!”, diz um dos membros do agora famoso grupo dos “golpistas do Whats­App”. Outro integrante mira no STF: “A Corte age à revelia da Constituição!”, diz e conclui: “Até quando vamos assistir o abuso prevalecer?”. A frase mais grave veio na forma de um desejo: “Prefiro um golpe à volta do PT”. Ele parece falar de variações do modelo chinês, que junta autoritarismo com mercado, e engata: “Ninguém vai deixar de fazer negócios com a gente”. Por fim, alguém arrisca uma digressão whats-filosófica, dizendo que “a espécie humana sempre foi violenta”, e que seria “uma utopia pensar que as coisas sempre se resolvem ‘na boa’”. É o Brasil em transe. Não por essas frases desconexas, algumas com o lamentável traço autoritário, aliás, ditas aos milhares no universo cacofônico das redes, dos bares, dos clubes, nos jogos de beach tennis Brasil afora. O transe é estarmos em meio a uma campanha presidencial discutindo essas c...

Fundo do poço

As declarações de uma fugitiva do regime ditatorial norte-coreano sobre sua experiência universitária nos EUA mostram bem o ovo da serpente que se tornou o ambiente acadêmico americano. Em entrevista reveladora à Fox News, Yeonmi Park disse que a sociedade americana perdeu o bom senso “a um ponto em que eu, como norte-coreana, não consigo compreender.” “Eu esperava gastar toda essa fortuna, todo esse tempo e energia para aprender a pensar. Mas eles estão forçando você a pensar da maneira que eles querem que você pense”, disse Park, descrevendo a situação como loucura. “Achei que a América fosse diferente, mas vi tantas semelhanças com o que vi na Coreia do Norte que comecei a me preocupar.” Durante a entrevista, Parks contou que foi repreendida por uma orientadora da universidade simplesmente por dizer que gostava de literatura clássica. “Achei que era uma coisa boa. Mas ela me disse ‘você sabe que estes escritores tem uma mentalidade colonial? Eles eram racistas e intolerantes e estã...