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Cinco anos de excessos

Editorial da Gazeta do Povo, 14 de março de 2024 Um dos principais marcos – se não o principal – do processo de destruição da liberdade de expressão no Brasil completou cinco anos nesta quinta-feira. Em 14 de março de 2019, o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, abria “de ofício” (ou seja, sem provocação do Ministério Público) o Inquérito 4.781, conhecido como “inquérito das fake news” ou, mais adequadamente, “inquérito do fim do mundo”, como o apelidou o então ministro do STF Marco Aurélio Mello. Seu objetivo oficial era o de investigar “notícias fraudulentas (fake news), denunciações caluniosas, ameaças e infrações revestidas de animus caluniandi, diffamandi e injuriandi, que atingem a honorabilidade e a segurança do Supremo Tribunal Federal, de seus membros e familiares”, mas até as paredes da sede da suprema corte sabem que, no fim, ele se prestou a muito mais que isso: serviu e tem servido para coibir críticas ao tribunal e qualquer discurso que a corte cons...

Lambe-botas ou protoditador?

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O racismo irracional

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Em 2007, a Revista Veja contou o curioso caso dos gêmeos idênticos Alex e Alan que recorreram ao sistema de cotas raciais na hora de fazer a inscrição no vestibular. Para comissão, Alex era branco e Alan negro. Depois do escândalo, a universidade recuou e passou a reconhecer os gêmeos como pardos/negros sem distinção. O tempo passou e no ano passado, dezesseis anos depois, Alan - aquele que em 2007 era o negro dos irmãos - foi reprovado em um concurso público , pois a comissão de heteroidentificação olhou para cara dele e decidiu que ele é branco. É isto. Não precisa de comentário nenhum. Os fatos falam por si próprios.

Makes sense

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Panóptico Topical

Fernando Schüler - Veja, 02/03/2024 “Não tem cartazes?”, perguntou alguém, observando a manifestação de Bolsonaro, na Paulista. Não tinha. “Disseram que era pra não levar”, diz uma senhora, vestida de amarelo. Uma outra diz que o medo era que iriam “fotografar e anexar nos inquéritos”. Que teria um monte de agentes da política lendo cartaz por cartaz, vendo se não tinha algum “ataque” ao STF ou às urnas eletrônicas. Ou quem sabe algum apelo para a implantação de uma monarquia absolutista. Achei um delírio. O Brasil tem 47 000 homicídios por ano, primeiro do mundo. Alguém acha que nossas autoridades perderiam tempo xeretando cartazes, em um domingo de sol? Além disso somos um país que respeita a Constituição, e ela diz que “é livre a manifestação do pensamento”. Temos baita orgulho disso. De viver em uma grande democracia em que ninguém precisa ter medo de pegar sua canetinha hidrocor e escrever o que pensa em um papelão, num comício. Ou não é bem assim? Naquele domingo também teve o ra...

Estado de coisas

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  Por Leonardo Coutinho Um retrato perfeito do estado das coisas entre os três Poderes no Brasil. O Judiciário carrega, o Executivo finge e o Legislativo observa. E ainda chamam isso de normalidade. Talvez, o melhor seria dizer normalização.

Há um elefante na sala, de 550 bilhões, e ninguém quer ver

Por Fábio Giambiagi O Brasil é pródigo em gastos mal avaliados. Há uma responsabilidade coletiva nisso. A principal é do governo, mas a sociedade, em geral, e a imprensa, em particular, são também responsáveis por isso. Programas de TV e de rádio propagam a generalização da indignação com despesas tão injustificáveis quanto macroeconomicamente insignificantes, cujo único efeito é aumentar o desprezo popular pela política (na Argentina, Javier Milei foi o resultado disso), enquanto, a céu aberto, desenvolve-se um enredo ignorado por todos. Caro leitor, há um elefante na sala — e ninguém quer ver. A despesa do INSS em 2024 será da ordem de grandeza de R$ 920 bilhões e a do Loas, de aproximadamente R$ 105 bilhões. Em torno de 43% das despesas do INSS (algo como R$ 395 bilhões) são com benefícios de um salário mínimo (SM), parâmetro este que afeta a totalidade do gasto com Loas. Em outras palavras, R$ 500 bilhões de gastos são estritamente indexados ao SM (e nem estou considerando outras d...